O anúncio do patrocínio de
uma grande cervejaria e a consequente intervenção da empresa no
Carnaval de São Luiz do Paraitinga, a 150 Km de São Paulo, atingiu os
amantes da cultura local com uma ferocidade comparável à enchente que
assolou o município valeparaibano em 2010. Fomos pegos pela notícia da
implantação de um camarote da cervejaria e, mais recentemente, pelo
anúncio da programação musical com nomes como “Bonde do Tigrão”.
Como as águas do Rio Paraitinga que subiram
lentamente naquela virada do ano para 2010, fomos sendo inundados por
uma série de notícias sobre os rumos da festa para este ano. A diferença
é que, desta vez, não houve equipes de rafting para nos salvar do
impacto causado por essa inundação de incoerências administrativas.
Estamos sendo tragados pelas águas barrentas da má administração, da ingerência política e econômica sobre a cultura de um povo.
Pelo
coletivo “nós” refiro-me aos milhares de admiradores da cultura
luizense que, como eu, encontraram no Carnaval de São Luiz do Paraitinga
um refúgio para as mazelas do mundo, um tempo de ser feliz
independentemente de patrocínio, de abadás ou de bundas de fora.
Em sua defesa, a prefeitura tem alegado que os
recursos na ordem de R$ 3 milhões ajudariam na revitalização da cidade,
mas ignoram o impacto que a medida mercadológica pode causar à festa. O
lodo das inúmeras inundações parece ter cegado os governantes locais.
Sim, a Prefeitura de São Luiz do Paraitinga está cega.
No topo de sua soberba, o poder público – em
consonância com os interesses do mercado – ignora “os quês e quais e
poréns” daquilo que justamente transforma o Carnaval de São Luiz do
Paraitinga em uma manifestação única, calcada nas tradições da cultura
caipira e da musicalidade que dela adveio. Esta mesma identidade da
festa que a levou como destaque às páginas do The New York Times
certamente atraiu a patrocinadora. Esta é a lógica do mercado. Mas R$ 3
milhões justificam colocar por água abaixo toda construção dessa
tradição reinventado do Carnaval luizense?
Será que a prefeitura e a Ambev ignoram o histórico
da festa, que começou no formato adotado até 2012, com a exclusividade
do estilo das marchinhas, como uma resposta à uma reportagem da Rede
Globo, com a qual os moradores e artistas se sentiram ofendidos em
1980?
Até que ponto o poder público pode interferir nas manifestações culturais emergidas da população?
Será
que sequer avaliaram os motivos pelos quais a festa atrai milhares de
foliões ano a ano?
Desconhecem que a apropriação simbólica daquilo que é
inerente ao povo da cidade, como seu sotaque arrastado e sonoro,
transposto às marchinhas, é um dos principais atrativos ao folião,
interessado nesta aura lúdica e de túnel do tempo locais?
Será que não avaliam que estão desconstruindo o ethos cultural
da cidade, cuja religiosidade e as festas pagãs se interlaçam, e formam
um dos pilares da identidade de São Luiz, que nada têm em comum com o
repertório musical proposto pela Ambev ou nas letras do Bonde do Tigrão?
O que atrai turistas a São Luiz, senão seus aspectos particulares como a capital das
marchinhas e cidade do Saci, o autêntico "raloim" brasileiro? Não é
também um erro estratégico desmontar essa identidade que é justamente o
que sustenta o turismo local? É se for para a cultura luizense se
transmutar um dia, que seja da mesma forma que ela surgiu: das massas, e
não do poder hegemônico de uma cervejaria ou do Estado.
Não se trata de puritanismo, como a oposição aos
fatos acima podem imaginar. Mas de preservar aquilo que torna São Luiz
especial – sua gente, suas alegrias e suas tradições.
Se
em 1920 se temia que o carnaval levasse ao nascimento de rabo e chifre,
só posso preconizar que o padre Monsenhor Ignácio Gioia estava certo.
Só mesmo a arte do coisa ruim pode justificar a mistura de estilos no
Carnaval luizense.
Stela Guimarães é
jornalista, nascida no Vale do Paraíba, mestre em Comunicação pela
Escola Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) com a
dissertação “Do rabo e chifre às marchinhas: como uma reportagem da Rede
Globo interferiu na criação do Carnaval de São Luiz do Paraitinga
(SP)”, defendida e publicada em 2011.