Então quando ele a tocou ela, tão incrédula, começou
a acreditar em alma. E não havia como
amá-lo mais do que ela já o amava, porque como é sabido, não há paixão ou contato físico que
supere o amor da amizade. A afeição criada pelo
encontro fraternal supera a alegria orgásmica e, assim, estabelece uma simbiose
perfeita (do tipo capaz de nos fazer acreditar em coisas etéreas como almas). Não há máscaras a usar ou cair, não há medo, receio ou fraude. A alegria de estar juntos independe do quanto vestido estão: são e serão sempre boa companhia, um ao outro.
Há
aquele momento brilhante em que estiveram juntos, mas ele apenas se soma a tudo
aquilo que eram antes ou aquilo que continuarão sendo depois. O futuro não causa
expectativa: podem ser fraternos amigos ou ardentes amantes, o adjetivo é que
menos importa nessa sentença. O substantivo rege essa oração: a amizade e, consequentemente, o amor que dela deriva.
E ela não precisava cavar um espaço no coração
para guardá-lo: há muito ele estava lá, e essa cadeira, conquistada ao longo dos
anos, a ele pertencia e era insubstituível. Como havia dito há muitos séculos um certo escritor espanhol, “La amistad multiplica las cosas buenas y
divide los males.". A partilha é o que importa.
Pintadas a mão por Stela, pessoa estranha porém bem-humorada e insistente na tentativa de imprimir cores em seu mundinho cotidiano mas raramente monocromático.
quinta-feira, setembro 13, 2012
domingo, agosto 26, 2012
Porque estamos muito, muito perdidos
Estamos muito perdidos porque experimentamos a antagonia da
sociabilidade e da misantropia.
Sentimo-nos obrigados a sermos felizes o tempo todo e, ao mesmo tempo, confortáveis em dissipar aos quatro cantos
nossa impaciência com a humanidade. Mau humor virou imagem para ser compartilhada. Alegria, Prozac. Não
aceitamos estágios de infelicidade como parte da vida. Afogados em medicamentos,
reclamamos nas redes sociais. Recorremos à internet para reencontrar pessoas
que não nos fazem a menor falta. Encontramos aquelas que de quem sentimos a ausência todos os dias. Ansiamos pelo amor, mas discorremos discursos embuídos
de cores afeita à sociopatia. Bom, só "os iguais". Perdemos a sinceridade e, quando a
encontramos, duvidamos dela. Preferimos prever o pior porque é difícil acreditar no que é bom. Ser honesto demais causa até certa culpabilidade. Trocamos amigos por amores efêmeros. Cosméticos corrigem
as falhas do corpo enquanto varremos para debaixo do tapete nossas
incoerências. E eu, que penso ser otimista e colorida, só consigo pensar nesse texto muito
azedo e monocromático. Estamos mesmo muito perdidos.
quarta-feira, agosto 15, 2012
“You make my day”
E aí ela estava acostumada a viver assim, como se em todos os
dias não soprasse nada além de uma brisa suave, incapaz de alterar os contornos
de seu fluido vestido ou daquele fio de cabelo que insiste em cair sobre seu
olho esquerdo.
A brisa permanecia a mesma e era assim desde que ela deixara alguém em
um banco de praça, simplesmente porque não havia nada mais que furacões intransponíveis para
eles. Depois daquela noite, todos os dias foram iguais, tomados por uma temperatura estável e
por um céu de um azul desbotado e constante.
Embora ela respirasse melhor, era como se colorido contrastante dos dias tivesse desaparecido. Estava enxergando um
colorido em 8 bits, nada além. Toda a ilusão romântica, que nela já era escassa há
muito, havia se transformado em uma confortável sensação estática de viver. Nenhuma intempérie ou tempestade se abatera novamente sobre seu corpo.
A paz que ela sentia, no entanto, parecia pouco natural para
alguém tão naturalmente colorido, como assim a costumavam descrever. Ela havia
se esquecido como era enxergar uma com variação superior a 16 milhões de cores. Ou dos efeitos de um trovão ameaçando suas janelas.
E foi assim, diante de uma calmaria sufocante, que ela percebeu a falta que lhe faziam as chuvas. Sim, ela se lembrava vagamente de sentir os pingos d’água atingindo seu
rosto e da sensação do frio cortante entrando por entre suas luvas em um já
saudoso inverno. Naquele momento, ela desejou ver raios, ouvir trovões. Ela
queria colher tempestade.
Naquele mesmo dia, pôde ver um acúmulo denso de nuvens se acumulando no horizonte. Cúmulus nimbos que subiam a mais de 20 mil pés avisavam que era chegada a hora de transformar a brisa em vento, o azul em luz. A tempestade escura estava muito, muito longe mas ela sabia que
poderia alcançá-la. Naquele momento, teve medo, mas sabia simultâneamente
que não era uma mulher presa aos dias de brisa. Sentia que a ordem só poderia vir
após caos de uma tormenta.
Correu em direção à chuva e, embora tivesse tipo tempo de se
vestir e calçar sapatos, sabia que não precisaria deles para encontrar o vento.
Quando a água despejou sobre ela e os raios transformaram momentaneamente o
escuro do céu em um halo tão brilhante quanto Sirius, ela não sabia qual seria
o seu destino, mas estava disposta a tocar o infinito. A
chuva havia arrumado os seus dias. E foi assim que ela sorriu de novo.
sábado, julho 28, 2012
Adeus, Playcenter!
O Playcenter, o mais tradicional parque de diversões de São Paulo e o primeiro do Brasil, fecha as portas amanhã e com elas, encerra naquela área de 85 mil metros quadrados a lembrança de muita gente que, como eu, viveu os melhores momentos de sua infância naquele lugar.
Não consigo imaginar meu passado sem as idas ao parque. Na primeira vez, eu era muito pequena para excursionar sozinha, então minha mãe foi junto. Lá vimos a baleia Orca, o cinema 180 e outras atrações como a montanha encantada - para a qual esperamos quase quatro horas para viver alguns momentos naquele barquinho. Nesta mesma vez, soubemos que um dos meninos da nossa excursão, o Carlinhos, havia sido expluso por arrancar a cabeça de um monstro (de mentira, claro) no chute. Foi a primeira vez que "presenciei" um ato de rebeldia. Eu tinha uns seis anos de idade, acredito.
Depois disso, as idas foram ficando mais frequentes. E eu, mais velha, mas não menos sonhadora. Na saída do Cine 180, havia uma barraquinha para venda de artigos de mágica e doces pega-trouxa (a trollagem dos anos de 1980). Era como se fosse o nosso beco diagonal. Meu dinheiro nunca dava para comprar algo além do lanchinho que eu mesma levava, mas com umas modinhas consegui adquirir o primeiro Dadinho que pintava a língua de azul (e minha amiga Miriam, troladora que só, comprou vários!).
Ir ao Playcenter era o momento mais esperado da minha vidinha. A gente costumava ir uma, duas vezes por ano. Mesmo morando pertinho do empreendimento, a grana era curta para o Passaporte da Alegria - que dava direito a brincar em todos os atrativos - e só por isso eu não ia mais. Era tudo tão legal que a Casa dos Espelhos, a Casa dos Monstros e o Splash (a mini montanha-russa aquática) tinham quase a mesma relevência. Tudo era mágico. O cheiro da pipoca, do algodão-doce... Mascar o recém-lançado Babaloo de morango.... Viver tudo isso ao lado de colegas e amigos da escola, como a inseparável Sheila, o Kiko, o Lê... E ainda, aos 14 anos, dar o primeiro beijo (dele) em um garoto pela qual era era mega apaixonada na volta da excursão.
Em 2008 levei, pela primeira e única vez, meu filho Henrique para conhecer o parque. As cores já pareciam desbotadas, não havia mais tanta emoção, eu pensei. Mas para o Henrique foi diferente. A magia estava lá, nele, em seus olhinhos brilhando ao final do dia com tantas luzes. Percebi que o parque podia ter mudado e, de certa forma, decaído (haja visto que perdeu grande parte de sua área por dívidas com a prefeitura), mas a mágica de imprimir bons momentos na nossa memória continuava latente.
Vamos sentir saudades, Playcenter...
Para saber mais, clique aqui para acessar a matéria da Folha.
Não consigo imaginar meu passado sem as idas ao parque. Na primeira vez, eu era muito pequena para excursionar sozinha, então minha mãe foi junto. Lá vimos a baleia Orca, o cinema 180 e outras atrações como a montanha encantada - para a qual esperamos quase quatro horas para viver alguns momentos naquele barquinho. Nesta mesma vez, soubemos que um dos meninos da nossa excursão, o Carlinhos, havia sido expluso por arrancar a cabeça de um monstro (de mentira, claro) no chute. Foi a primeira vez que "presenciei" um ato de rebeldia. Eu tinha uns seis anos de idade, acredito.
Foto daqui: http://playcentermaniaco.blogspot.com.br/2010/12/do-fundo-do-bau.html
Depois disso, as idas foram ficando mais frequentes. E eu, mais velha, mas não menos sonhadora. Na saída do Cine 180, havia uma barraquinha para venda de artigos de mágica e doces pega-trouxa (a trollagem dos anos de 1980). Era como se fosse o nosso beco diagonal. Meu dinheiro nunca dava para comprar algo além do lanchinho que eu mesma levava, mas com umas modinhas consegui adquirir o primeiro Dadinho que pintava a língua de azul (e minha amiga Miriam, troladora que só, comprou vários!).
Ir ao Playcenter era o momento mais esperado da minha vidinha. A gente costumava ir uma, duas vezes por ano. Mesmo morando pertinho do empreendimento, a grana era curta para o Passaporte da Alegria - que dava direito a brincar em todos os atrativos - e só por isso eu não ia mais. Era tudo tão legal que a Casa dos Espelhos, a Casa dos Monstros e o Splash (a mini montanha-russa aquática) tinham quase a mesma relevência. Tudo era mágico. O cheiro da pipoca, do algodão-doce... Mascar o recém-lançado Babaloo de morango.... Viver tudo isso ao lado de colegas e amigos da escola, como a inseparável Sheila, o Kiko, o Lê... E ainda, aos 14 anos, dar o primeiro beijo (dele) em um garoto pela qual era era mega apaixonada na volta da excursão.
Em 2008 levei, pela primeira e única vez, meu filho Henrique para conhecer o parque. As cores já pareciam desbotadas, não havia mais tanta emoção, eu pensei. Mas para o Henrique foi diferente. A magia estava lá, nele, em seus olhinhos brilhando ao final do dia com tantas luzes. Percebi que o parque podia ter mudado e, de certa forma, decaído (haja visto que perdeu grande parte de sua área por dívidas com a prefeitura), mas a mágica de imprimir bons momentos na nossa memória continuava latente.
Vamos sentir saudades, Playcenter...
Para saber mais, clique aqui para acessar a matéria da Folha.
quinta-feira, fevereiro 23, 2012
Sobre jabuticabeiras e quintais
Tem coisas que a gente só é capaz de aprender quando é criança. Comer jabuticabas é uma delas. Tente ensinar um adulto a comer jaboticabas e bingo: terás a comprovação da impossibilidade do aprendizado tardio de tal atividade. Sempre haverá uma cara enojada da cor branquinha que sai do fruto – ainda que haja alguma semelhança com as uvas, estas mais populares que a prima jabuticaba – ou outro preocupado com os efeitos colaterais. “Dá prisão de ventre”, disseram-me uma vez.
Sorte tive eu, que aprendi pequenininha a comer o fruto redondinho direto do pé, ainda no jardim de infância. Era um tempo em que as escolinhas tinham árvores, sem que isso impactasse nas mensalidades ou aparecesse como um bônus nas propagandas. As escolas tinham árvores porque isso era comum também nas casas de amplos quintais, coisa rara hoje nas grandes cidades.
Naquela época, a gente ficava ansioso pela época de colheita da fruta. Dia a dia, acompanhávamos o crescimento da bolinha verde, que ia mudando de cor com o tempo até ficar quase pretinha. Era uma atividade tão divertida como a de esperar a lagarta virar borboleta.
Observar a jabuticabinha crescer no pomar da escola tranquilizava minha ansiedade de nascença. Quando atingia o ponto, a gente corria até as árvores que me pareciam gigantes para colher os frutos ao alcance das mãos. A diversão continuava a cada frutinha colocada na boca.
Aprendi, naquele tempo, que o sabor da frutinha era uma mistura do suco de sua casca roxea com a polpa branquinha dentro. De tanto analisar, me especializei em saber quando um fruto não estava muito bom – ou já havia sido provado por um passarinho antes. Casquinhas um pouco abertas eram descartadas, mas sempre em um montinho de terra para ver se de lá surgiria outra jabuticabeirinha. Me fazia de passarinha, semeando jabuticabeiras que, para meu desalento, nunca brotavam.
À noite, deitava-me ao lado da minha mãe e irmã e brincava de olhos de jabuticaba, enconstando meu rosto ao dela. Ensinei meu filho a brincadeira, mas não consegui passar adiante meu amor pelas jabuticabinhas. Talvez só nos tenha faltado árvores e quintais.
quarta-feira, dezembro 07, 2011
Um dia qualquer
Acordo um minuto antes daquela mulherzinha que vive dentro do meu celular gritar: "são sete horas e dois minutos. é hora de acordar". Dia 7 de dezembro de 2011. Assim começa meu dia, um dia comum, um dia qualquer. Daqueles em que nada ocorre de incomum.
Nenhum evento extraordinário. Nenhuma ligação inesperada.
Ligo para o trabalho para avisar sobre um pequeno atraso - teria que levar meu filho ao médico, marcado há quase dois meses. Eu havia me esquecido a data da consulta, por isso aviso minha chefe em cima da hora.
Recado dado, atravesso mais uma vez a rua movimentada, reclamo pela enésima vez da grama molhada na minha sapatilha. Pego o ônibus.
Espero pelo atendimento médico ao longo de infindáveis setenta minutos. Mais uma hora relatando uma década de histórico médico do Henrique. Eu deveria ficar feliz com tanta atenção da alergologista, mas só pensava no ponteiro do relógio e no horário do trabalho.
Levo o filhote até a Redação. Recebo umas pautas. Ao me ver no espelho do banheiro, penso em como o meu cabelo está ruim hoje.
Pego uma carona até minha casa, almoço. Um novo ônibus me leva de volta à labuta. Esqueço o chapéu em casa e escondo meu nariz com as mãos quando estou no sol. Calor. Ar condicionado. Apuro uma pauta me dada ao final da manhã, mas ela é suspensa. Preciso ir à usina. Antes, leio uns textos sobre o tema da vez. Não entendo nada do assunto. Compreendo, mas fico tensa. A entrevista será em inglês. Sobre baterias de veículos elétricos. Com um suíço.
No local do evento, encontro um colega engenheiro, mais tenso que eu. Preciso falar com ele, que será a ponte entre eu e o suíço. Uma entrevista de outra colega jornalista passa na frente. Sou assessora, prioridade aos demais repórteres, certo. Okay, mas estou ansiosa.
Espero e converso com o Chris, fotógrafo, marido de uma amiga, a Dani. Penso como gosto de ambos, apesar da pouca convivência. Falamos dois minutos sobre férias e planos em conjunto para nossas crianças. Não tiro os olhos do colega que dá a entrevista: preciso falar com ele antes do fim da pausa do café! Ansiedade. De novo. Vejo o suíço, mas não posso entrevistá-lo sem antes ter um respaldo do engenheiro. Meia hora depois, ele conclui a entrevista e fica "livre" para me ajudar. Explico minha pauta, percebo que ele está tão agitado quanto eu.
Como um pãozinho com salame. Tomo um suco de uva. Fico solidária com a ansiedade alheia e até sinto uma paz de espírito neste momento. Ela dura cinco minutos. Tenho que fazer a tal entrevista. Em inglês. About technical stuffs I have no idea. Nem o conhecimento de todos phrasal verbs do mundo, meu temor número um nas aulas de inglês, poderiam me ajudar. Smart grid e outros assuntos eletromecânicos na pauta.
O engenheiro me ajuda, esclarece que as perguntas levariam a um caminho complicado a seguir na matéria... Ligo na Redação. Falo com Flávio, explico para o Lúcio... Tenho que esperar uma deixa, o Lúcio precisa de um material com o suíço.
A essa altura, o alvo da entrevista volta à sala do evento, vai para primeira filha, olhos vidrados na palestra. Recomendam-me para eu não o interrompa. Assisto à palestra de três pessoas, aguardando o momento da entrevista. A última delas em inglês. Bom, penso com meu fecho eclair, assim vou destravando meu vocabulário técnico.
São 18h. Consigo conversar com o suíço. Ele é gentil. Mas a entrevista não rende. Ao final, falamos sobre assuntos diversos. Destravo. O distinto senhor é solidário com minha deficiência 'vocabular' e me conta sobre seu aprendizado de italiano. "O difícil não é falar outra língua, é ler o que está nas entrelinhas de cada uma delas". Sorrio, ao lado do colega engenheiro. Conto ao suíço sobre o escritor Luis Borges. Argentino e genial (aos xenófobos, sim, isso cabe na mesma frase), Borges explicou a um amigo, certa vez, porque não escrevia em outra língua, apesar de ser poliglota. "Só em espanhol posso dançar com as palavras", conto ao suíço. Em inglês.
É o fim do expediente, mas preciso dirigir da usina ao escritório. No caminho, faço a massagem no dorso do nariz, recomendada pelo médico. Dor e fome.
Chego à estação de trabalho, como o povo da informática chama a mesa com computador (certo?). Abro o Gmail. Duas novas mensagens. A primeira, da minha prima, me lembra sobre o prazo para o pagamento do IR após ganho de capital por transação imobiliária. A segunda diz para mim "nenhum e-mail seu hoje". Respondo. Fecho o computador.
Queria ver a novela das seis, mas é tarde. Tenho dez minutos até o próximo ônibus. Ligo a TV da Redação. [Personagem da novela] Celina diz algo como: "blá blá blá, depois de uma certa idade, a gente quer um homem com problemas reais, do dia a dia". Penso: sábia Celina! Desligo a TV rapidamente. Pego o livro do Galeano, leio quando o ônibus está parado na problemática rotatória da Avenida Paraná. Vou para o ponto. O ônibus passa em menos de cinco minutos (momento mais feliz do dia).
Chego em casa. Esqueço de comprar o chocolate que o Henrique pediu. Lembro sobre a necessidade de pagar umas contas - a da internet e do transporte escolar. O condomínio vence em dois dias. Reflito, sem obter resposta: quando poderei me mudar deste apartamento para o outro? Quando o pedreiro deve começar a reforma? Quando poderei comprar o material? Faço o balcão da cozinha de qual material? So many questions. Cotidiano.
Como um copo de iogurte com granola. Fabi me liga para buscar o colchão. Espero para tomar banho. Ela não vem. Postergo o banho. Organizo minhas contas. Acesso o Facebook. Ligo para minha mãe. Organizo mais documentos. Ouço Chico Buarque no Youtube. Deixo um bilhete com todas orientações para a babá levar o Henrique ao pneumologista amanhã, no horário em que estarei eu mesma no médico para o curativo do nariz. Sinto-me mal por não levar eu mesma ele ao consultório. Mães e culpa caminham juntas. 22h06. Deu por hoje? Não ainda.
Faço contas dos gastos com o apartamento. Henrique dorme. Vejo mais coisas supérfluas na internet. Banho. Sono. Dia cheio, normal...
23h53. Concluo este texto para não deixar de lembrar que a vida é assim: uma sucessão frases nem sempre animadoras, mas quase sempre dominadas pelo tempo verbal mais importante: o presente [imperfeito] do qual é feito o cotidiano. Durmo, em paz.
terça-feira, novembro 01, 2011
Eu, o SUS, e a autoestima
quem já olhou na minha cara pelo menos alguma vez na vida, desde dos meus nove anos de idade, sabe que sofro com acne. é a mais grave: chamada a do tipo 3.
longe de ser uma doença como a citada no texto de Nina Crintzs "Eu, o SUS, a ironia e o mau gosto", a acne já me rendeu muitos, mas muitos mesmos, momentos depressivos. rendeu-me dor, perda de dinheiro em vários tratamentos inexplicáveis, e um apelido de mau gosto dado por uns colegas no jornal no qual trabalhei. stela acne. era assim que me chamavam.
eu não gostava, mas estava acostumada. houve épocas em que tive vontade de colocar um saco na cabeça porque acne, gente, acne dói - no rosto e na alma. é uma doença grave? não. ninguém morre disso, pelo que eu saiba. se fosse pra morrer, eu já teria morrido: partido desta para uma vida melhor, como dizem, o que pra mim seria chegar ao paraíso com um rosto de porcelana. pensei nisso muitas vezes nas vida. e alguns pés na bunda que eu levei, acabava atribuindo a essa mazela.
nunca falei disso assim, publicamente. e nem ia falar tanto. mas gostaria de compartilhar como minha vida começou a ficar mais fácil.
há um medicamento chamado isotretinoína, lançado por um único laboratório como roacutan, no início dos anos 2000. esse medicamento atua diretamente na glândula sebácea, reduzindo-a gradativamente. com isso, a acne desaparece - na maioria dos casos. eu sabia da existência do roacutan, mas ele era caro demais pro meu salário de repórter-mãe-de-família.
em 2004, uma mulher me parou na rua - sim, as pessoas me paravam na rua para falar da minha acne - e me contou de um sobrinho que havia feito o tratamento. pelo SUS. sim, a única caixa alta do texto. O SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE distribuía - e distribui, mediante rigoroso critério - o tratamento com roacutan. isso antes mesmo da quebra da patente - que barateou o preço do medicamento . isso ainda na época de fhc e serra - para quem pressupor que tô puxando sardinha para o PT!
graças ao SUS eu tive um rosto menos inflamado e conquistei um pouco da minha autoestima. infelizmente, eu estou no quadro de reincidência - e voltei a ter acne. porém, ela voltou mais branda - nunca mais como antes de 2004 - e recomecei o tratamento com a empresa onde trabalho custeando 50% do meu tratamento.
o SUS garante 100%, mas se eu posso pagar, hoje, por essa diferença, porque ir ao posto de saúde pegar o lugar de gente que, como eu, redescobriu o rosto perdido debaixo de espinhas (ah, sim, aquelas coisas tidas por nojentas para tanta gente) graças à saúde pública?
as marcas ainda estão no meu rosto e isso é uma coisa com a qual convivo. toda vez que olho no espelho, elas estão lá para me lembrar de como eu fui... antes de ser atendida na fila dos pobres usuários do SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE deste país.
longe de ser uma doença como a citada no texto de Nina Crintzs "Eu, o SUS, a ironia e o mau gosto", a acne já me rendeu muitos, mas muitos mesmos, momentos depressivos. rendeu-me dor, perda de dinheiro em vários tratamentos inexplicáveis, e um apelido de mau gosto dado por uns colegas no jornal no qual trabalhei. stela acne. era assim que me chamavam.
eu não gostava, mas estava acostumada. houve épocas em que tive vontade de colocar um saco na cabeça porque acne, gente, acne dói - no rosto e na alma. é uma doença grave? não. ninguém morre disso, pelo que eu saiba. se fosse pra morrer, eu já teria morrido: partido desta para uma vida melhor, como dizem, o que pra mim seria chegar ao paraíso com um rosto de porcelana. pensei nisso muitas vezes nas vida. e alguns pés na bunda que eu levei, acabava atribuindo a essa mazela.
nunca falei disso assim, publicamente. e nem ia falar tanto. mas gostaria de compartilhar como minha vida começou a ficar mais fácil.
há um medicamento chamado isotretinoína, lançado por um único laboratório como roacutan, no início dos anos 2000. esse medicamento atua diretamente na glândula sebácea, reduzindo-a gradativamente. com isso, a acne desaparece - na maioria dos casos. eu sabia da existência do roacutan, mas ele era caro demais pro meu salário de repórter-mãe-de-família.
em 2004, uma mulher me parou na rua - sim, as pessoas me paravam na rua para falar da minha acne - e me contou de um sobrinho que havia feito o tratamento. pelo SUS. sim, a única caixa alta do texto. O SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE distribuía - e distribui, mediante rigoroso critério - o tratamento com roacutan. isso antes mesmo da quebra da patente - que barateou o preço do medicamento . isso ainda na época de fhc e serra - para quem pressupor que tô puxando sardinha para o PT!
graças ao SUS eu tive um rosto menos inflamado e conquistei um pouco da minha autoestima. infelizmente, eu estou no quadro de reincidência - e voltei a ter acne. porém, ela voltou mais branda - nunca mais como antes de 2004 - e recomecei o tratamento com a empresa onde trabalho custeando 50% do meu tratamento.
o SUS garante 100%, mas se eu posso pagar, hoje, por essa diferença, porque ir ao posto de saúde pegar o lugar de gente que, como eu, redescobriu o rosto perdido debaixo de espinhas (ah, sim, aquelas coisas tidas por nojentas para tanta gente) graças à saúde pública?
as marcas ainda estão no meu rosto e isso é uma coisa com a qual convivo. toda vez que olho no espelho, elas estão lá para me lembrar de como eu fui... antes de ser atendida na fila dos pobres usuários do SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE deste país.
domingo, setembro 25, 2011
Ploft e pluft
minha definição de amor:
amor é algo que acontece.
amor faz ploft. pronto, vc está amando.
e também faz pluft, e lá se foi ele.
amor brota em terreno árido.impossível de ser semeado.e desaparece do mais fértil terreno.
amor é isso.
uma conjunção de onomatopeias.
amor, por Stela Guimarães.
segunda-feira, setembro 12, 2011
Nós. 2
Pensei ter sido nós dois mais sofrimento do que amor. Passado tanto tempo, penso que os dois sentimentos sempre estiveram presentes de forma parietária. Vira e mexe, lá estão eles: juntos, para me lembrar da sua existência. Eu abdiquei de nós dois. Você, da sanidade neste processo. "Quem não soube a sombra, não sabe a luz", disse um certo cantor.
Acostumei a viver com esse peito semivazio, com sua presença escondida lá, em algum lugar que eu não quero acessar. Faço "de conta que tudo passa como a fumaça que o vento traz". Sofri com suas idas e vindas do seu universo particular. Você criava roteiros inexistentes, competia com sua sombra. Eu te amava, e amo, mas não soube – nem nunca saberei – lidar com tantas emoções díspares.

Eu queria abrir um pedaço de mim e tirar você de lá de dentro. Mas seus olhos verdes, seu cabelo preto e encaracolado que misturava aos meus dedos e seu sorriso infantil são imagens bonitas demais para serem esquecidas. Você de chapéu, dançando no Carnaval, ajudando as crianças... Com seu sobrinho no colo, os dois sorrindo com os mesmos olhos, como se um continuasse o outro...
Talvez nunca perdoe a mim mesma por ter colocado razão à frente da emoção. Aprendemos nos livros e nos filmes que o amor supera tudo. Mas há tempos deixei de acreditar na literatura ou em roteiros de cinema. O dia a dia, a paz mesmo de se estar só... É muito ou pouco para ser abdicado em nome do amor? Seríamos felizes juntos se não fomos nem quando estávamos felizes? São algumas perguntas que vêm a minha mente, acompanhadas pela mais dura delas:
Quanto tempo se leva para amar alguém? Pouco. Quanto tempo se leva para esquecer alguém? Muito? Sempre? Como posso deixar de pensar em você, se quando minha ferida parece anestesiada, ela volta a pulsar... e pulsar... no ritmo do meu coração?
Acostumei a viver com esse peito semivazio, com sua presença escondida lá, em algum lugar que eu não quero acessar. Faço "de conta que tudo passa como a fumaça que o vento traz". Sofri com suas idas e vindas do seu universo particular. Você criava roteiros inexistentes, competia com sua sombra. Eu te amava, e amo, mas não soube – nem nunca saberei – lidar com tantas emoções díspares.
Eu queria abrir um pedaço de mim e tirar você de lá de dentro. Mas seus olhos verdes, seu cabelo preto e encaracolado que misturava aos meus dedos e seu sorriso infantil são imagens bonitas demais para serem esquecidas. Você de chapéu, dançando no Carnaval, ajudando as crianças... Com seu sobrinho no colo, os dois sorrindo com os mesmos olhos, como se um continuasse o outro...
Talvez nunca perdoe a mim mesma por ter colocado razão à frente da emoção. Aprendemos nos livros e nos filmes que o amor supera tudo. Mas há tempos deixei de acreditar na literatura ou em roteiros de cinema. O dia a dia, a paz mesmo de se estar só... É muito ou pouco para ser abdicado em nome do amor? Seríamos felizes juntos se não fomos nem quando estávamos felizes? São algumas perguntas que vêm a minha mente, acompanhadas pela mais dura delas:
Quanto tempo se leva para amar alguém? Pouco. Quanto tempo se leva para esquecer alguém? Muito? Sempre? Como posso deixar de pensar em você, se quando minha ferida parece anestesiada, ela volta a pulsar... e pulsar... no ritmo do meu coração?
sábado, março 26, 2011
Não, eu não aceito me casar com vc, @perdedor
Não, eu não aceito me casar com você, senhor gosto-de-fazer-charme-pedindo-mulheres-em-casamento-via-MSN. Talvez você, mulher, já tenha se deparado com um desses, tipinho cada vez mais comum no universo internéticogalático: o proponente de casório via MSN, SMS, Facebook ou Twitter.
Parece-me que propor amor eterno via redes e comunicadores instantâneos "é o novo preto", como diria minha amiga Fabi. Na última semana, recebi três propostas de casamento via internet, de três homens diferentes. Uma veio via e-mail, olha que old fashioned, e partiu do 'senhor P.'. Na realidade, ele não costuma propor casamento, ele sempre afirma a mesma coisa: "me caso com vc".
Enfim, se não sou apaixonada por ele(s), por que deveria me revoltar? Sim, ele é um cara bacana e tem ótimos atributos, mas cataloga as mulheres com quem sai como membros de uma seita que ele chama (penso que carinhosamente) de CPS. O 'C' é de central, o 'P' é a primeira letra do nome do rapaz e 'S', de solicitações. Ele tem muitos encantos, admito, mas por essas e outras eu não enlouqueceria de amores pelo ragazzo.
Ok, quer saber? Senhor 'P'ropoente: você não é a última bolacha do pacote, meu caro. E embora seja muito gentil - ao ponto de cuidar de mim um dia em que eu estava bem doente e de ser muito amável com meu filho - cheguei a conclusão que não vale a pena perder muito tempo com alguém que fala mal da ex-namorada e depois corre atrás dela porque, possivelmente, sua CPS esteja meio precária. Ou um cara que esconde ter passado as férias com uma de suas ficantes - e a deixa ser chamada de 'quati' por uma amante-sem-caráter.
Tá, cansei de ser boazinha, ok? Sou simpática e boa amiga, mas não quero me casar com nenhum desses machos proponentes de amor eterno tardio.
A última piada do mês foi a de outro senhor vivo-100-anos-sem-te-ver-mas-me-acho-no-direito-de-lhe-dizer-via-MSN-que-quero-me-casar-com-você. Pronto, rimado fica até mais legal. Você fica com alguém uma vez que nunca mais vê. Uns aninhos depois, o distinto aparece do além no seu MSN dizendo: "oi linda". Muda o repertório, babe. Porque "oi linda" é um outro clichê "du ramo" da cafagestagem. Você tenta não ser muito indelicada com o cavalheiro e ele logo emenda as perguntas básicas do tipo: "como vc está?". Preguiça. Ai, que preguiça. Mais uma resposta gentil e o moço solta na terceira frase (depois da clássica interjeição hum', que ele costuma usar): "quer se casar comigo?". NÃO, EU NÃO QUERO ME CASAR COM VOCÊ. Corto por ali a conversa. Afinal, minha parcela 'bitch' do papo está sendo destilada nesse texto e eu não preciso alfinetá-lo diretamente. Depois mando um link pra ele do blog e, se ele tiver paciência em fazer algo além de se mirar no espelho, talvez leia e entenda o recado.
Importante: eu NUNCA pensei em me casar com esse moçoilo e JAMAIS dei algum motivo pra ele imaginar isso. A explicação? Faço minhas as palavras da amiga Joselani: "homem tem uma autoestima inexplicável". Pois é. Acho que pedirei para o tal, o R., me passar um pouco da sua segurança. Quem saiba eu gaste menos rímel com isso antes de sair de casa.
A terceira proposta foi igualmente descabida. Okay, esse não fez o pedido de casamento, mas me disse (anotem, essa é boa e inédita, NOT!) "vc foi a melhor coisa que me aconteceu, a melhor companhia e a melhor NAMORADA mais legal que eu tive".
A grafia da 'namorada' em caixa alta é minha. NÃO, EU NÃO FUI SUA NAMORADA, respondi. Gente, eu não fui namorada deste cara, o taç. Mr. F.! Tá, quando o conheci ele distribuía poesia num fanzine e achei literalmente poético à época. Eu achei o poema principal ruim e ele curtiu. Logo, fui uma bitch, não posso ter sido a melhor coisa que aconteceu pra esse cara. E não fui, certamente.
Porque, na real, sem rancor, eu mal lembro da existência desse homem. Só me lembro porque às vezes ele me manda uns spans com poesias dele. Sou educada, leio e, vez ou outra, até reviso e dou pitacos. Mas isso porque sou legal, lembra? NÃO ESTOU TE DANDO MOLE.
Eu sei, vocês devem estar pensando que eu é que me acho a última bolacha do tal pacote. Não, não sou. Mas também não sou uma cream cracker e nem uma traquinas. Aliás, ninguém é. Todo mundo tem lá seus encantos. Mas o repertório desses machos do século passado é que me cansa.
Se algum deles se importasse de fato comigo, teriam agido de modo bem diferente, cada um na sua maneira. "Dramas de sucesso, mundo particular, solos de guitarra" e gracejos do tipo "não vão me conquistar" e nem fazer com que eu alimente seus egos respondendo também com um virtual "sim".
Parem de brincar de galã de quermesse, meninos. Quando algo do tipo ocorre, sempre me lembro de uma das minhas personagens favoritas do cinema, Claire Colburn (Kirsten Dunst) em Elizabetown. Em uma cena, Claire responde à Drew (Orlando Bloom): "I don´t need an ice cream cone"/"Here's a little something to make you happy"/"Something sweet that melts in five minutes.".
É a mesma coisa comigo: eu não preciso de um sorvete de casquinha, algo 'sweet' and 'cute' pra me deixar feliz durante cinco minutos. Give me a break, men! O que você pretende dizendo essas coisas? Um elogio ou é marca de território? Quer saber? Não preciso desse sorvetinho. Para essas coisas, existem pessoas que realmente se importam - e me oferecem uma sorveteria inteira, com buffet por quilo eterno e de graça. São meus amigos, esses tais sorveteiros.
Meu coração é grande, cabe bastante gente (e de fato, sinto que ele nunca está com superlotação). Mas respeito é bom e a gente gosta, não é? Por isso omite seus nomes aqui, rapazes. Por respeito. Porque não sairei reclamando simplesmente porque estou solteira. E o fato de eu estar sozinha não lhes confere o direito de pensar que estou desesperada por um @pedidodecasamento. Eujá fui casada, sei como é. E, se um dia, decidir 'juntar os trapos' de novo, não será com alguém que finge se importar. Será com alguém que se importa - e que me importe também. Alguém que me respeite, mas respeite suas namoradas e mulheres. Alguém que eu vou respeitar e só aí, quem sabe, responder: "eu aceito".
Stela Guimarães
26/03/2011
(prometo revisar depois, 'galere'. tô cansada demais pra encontrar problemas ortográficos, ortodônticos ou urodinâmicos a essa hora)
quinta-feira, fevereiro 24, 2011
I´m back. E daí?
Tudo começou no Carnaval 2005, quando me apaixonei perdidamente pela festa de São Luiz do Paraitinga (SP). No ano seguinte, um insigth durante uma aula na ECA: por que não estudar essa manifestação a partir da relação com a mídia? Era só um sonho, que virou projeto, que virou noites de sono perdido para a prova do Mestrado, que virou aprovação, que virou um novo projeto, que virou relatório, que parou, que virou muitas outras noites e, por fim, virou dissertação.
Nesta terça-feira (22), “Do rabo e chifre às marchinhas: como uma reportagem da Rede Globo interferiu na criação do carnaval de São Luiz do Paraitinga (SP)” foi aprovada pela banca da ECA-USP, com a presença ilustre dos meus amigos Elton Rivas, André Losso, Mariana Passos, Fernanda Morais e Priscila Curce.
Foram 1095 dias e mais de 26 mil horas dedicadas a esse estudo. A meta era concluí-lo, mas sempre fica uma sensação de 'e agora?'.
Nesta terça-feira (22), “Do rabo e chifre às marchinhas: como uma reportagem da Rede Globo interferiu na criação do carnaval de São Luiz do Paraitinga (SP)” foi aprovada pela banca da ECA-USP, com a presença ilustre dos meus amigos Elton Rivas, André Losso, Mariana Passos, Fernanda Morais e Priscila Curce.
Foram 1095 dias e mais de 26 mil horas dedicadas a esse estudo. A meta era concluí-lo, mas sempre fica uma sensação de 'e agora?'.
quinta-feira, outubro 07, 2010
Os Três Mal-Amados
De João Cabral de Melo Neto
Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.
************
Minha homenagem ao João Cabral de Melo Neto, que também merecia o Nobel de Literatura.
Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.
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Minha homenagem ao João Cabral de Melo Neto, que também merecia o Nobel de Literatura.
Merda? Só no ventilador

Não sou artista, mas admitido: tentei ser inúmeras vezes e em diversas modalidades. A primeira tentativa foi a dança, com a famosa modalidade doa anos 80, a do 'jazz'. A iniciativa só serviu para dar a minha infância um tom ainda mais melodramático, quase como roteiro de novela mexicana. De tão descordenada quase fui parar no consultório sob suspeita de dislexia.
Mas continuei tentando ser uma pessoa do meio artístico. Aos 12, era 'atleta' de ginástica olímpica. Foram dois anos de intenso treinamento que me deixaram um aprendizado eterno: como levantar sorrindo depois de uma apresentação sofrível em um ginásio lotado. Explico: eu era boa naquilo - aprendi parada de mão, mortal e alguns exercícios no cavalo. Mas, ironicamente, empacava feito mula no fundamental exercício da 'estrela'. Não acha ironia? Lembre-se: eu me chamo Stela - nome que, em latim, significa estrela. Okay, conformei-me em não ser uma supernova e ficar como a primeira estrela estática do cosmos.

Naquele mesmo tempo, eu cantava na escola acompanhada de um colega, que conheci na igreja! Ele virou músico e, como cantor de musical, foi morar na Itália. Eu? Ganhei uma rouquidão (que estudo se é patológica ou apenas fruto do jeito sexy e peitoral do latino-americano) e virei jornalista, que era um segundo sonho meu, além da música.
Desajeitada para a ginástica e a dança, aos 14 fui me arriscar no teatro. Foram menos de quatro meses de oficina que eu frequentava na cidade vizinha onde eu vivia até pouco tempo, no Vale do Paraíba paulista. O professor, muito simpático, dizia que eu levava jeito (acredito que por dó das minhas desventuras com as artes). Talvez se eu pudesse viver um personagem que não exigisse muita coordenação motora, como um abajur, penso agora. Porém, minha futura carreira nas artes cênicas foi enterrada por um gesso, quando quebrei meu pé voltando da aula.

Restou-me a arte da escrita: mas oito anos como repórter de jornal diário acabam com o sonho de qualquer escritor. Parafraseando João Cabral de Melo Neto, o jornalismo diário "comeu meu nome, minha identidade, meu retrato", minha vontade de escrever um livro. Fiquei perdidinha em pautas sobre aprovações de projetos de lei, vazão de reservatórios, explosões e incêndios... Até que acabei me encontrando justamente onde todos se perdem: no Carnaval.
Ao conhecer a festa profana da pequena cidade de São Luiz do Paraitinga (SP), dei-me conta que não nasci para ser artista: estou aqui pra estudar esses fenômenos. Durante três anos, enterrei-me na literatura sobre o tema e fui estudar Sociologia da Comunicação e da Cultura.
Graças ao caos que o mundo (ou seria as leis da física?) nos impõe, aportei na tríplice fronteira brasileira neste ano, deixando parte do meu coração em minha terra natal. A outra parte está aqui, batendo forte nesta nova tentativa de receber os votos de 'merda' ao final deste espetáculo que é a vida.
terça-feira, julho 06, 2010
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