quarta-feira, março 25, 2009

Gene Simmons é chato




Se acha o bam-bam-bam do roquenrol e o maior comedor de todos os tempos.
Faz reality show só porque é pago para tanto.
E desmistificou a lenda sobre a inspiração do Secos e Molhados.
Comecei a gostar de rock pelo Kiss, é fato.
Mas sou mais o U2 --estou preparada por uma cruxificação por dizer isso(se bem que o Bono é chato também!).


Abaixo, reproduzo entrevista com o lider do Kiss ao Jobatê Medeiros, no Estadão de hoje (25 de março de 2009).


Com a língua de fora, mas infatigáveis
Gene Simmons, do Kiss, fala ao Estado sobre o retorno ao Brasil, 10 anos depois
Jotabê MedeirosTamanho do texto? A A A A
Gene Simmons, baixista e vocalista do Kiss, é um herói do rock com a língua solta. Nos dois sentidos. Fala bastante e mostra ainda mais a língua. Aos 59 anos, o mais famoso linguarudo da música falou ao Estado na tarde de segunda-feira sobre a nova turnê da banda no Brasil.

Dez anos depois de sua última passagem pelo País (quando tocou para 40 mil pessoas em Interlagos), o grupo retorna com a turnê Kiss Alive/35 ao País. Toca pra 30 mil pessoas no dia 7 de abril, às 21h30, na Arena Anhembi, em São Paulo (no dia 8 é a vez da Praça da Apoteose, no Rio). Os ingressos custam R$ 170 (pista) e R$ 350 (Pista VIP), à venda no site Ticketmaster.com.

O Kiss vem sem Ace Frehley e Peter Criss, metade da formação original. Como você pode garantir que esse ainda é o Kiss?

Quando éramos jovens, nós achávamos que uma banda nunca poderia se separar senão ela perderia sua alma. Depois, a gente vê que isso não é verdade. Ringo Starr não era da formação original dos Beatles. Vários membros dos Stones saíram da banda, e os Stones não acabaram com a saída de Brian Jones. O Van Halen não acabou sem David Lee Roth. Quase todas as grandes bandas têm formações diferentes de quando começaram. Uma banda é como um time de futebol, não é só um jogador. Quando o time perde, todos perdem. Nós agora temos a responsabilidade de dar à banda a pegada de sempre, de manter o espírito rock?n?roll.

Desde os anos 1970, vocês se mantêm no topo, com legiões de fãs no mundo todo. Qual é o segredo dessa longevidade?

A única coisa que nunca muda, para mim, é que nós buscamos atender às expectativas dos fãs. Não se trata apenas de cantar umas músicas, mas de cantá-las como se fosse a primeira e a última vez. Nós sabemos do sacrifício de alguém comprar um tíquete, esperar com ansiedade o seu show preferido, espremer-se entre a multidão. Porque um dia nós também fomos fãs. Então, o que damos a eles é o nosso melhor, é o que chamamos de extravagância ao vivo.

Há uma espécie de lenda urbana aqui no Brasil que conta o seguinte: nos anos 1970, vocês estiveram no México e viram o show de um grupo brasileiro chamado Secos & Molhados. Dali, copiaram a ideia de se apresentar com maquiagem pesada, mascarados.

Conheço essa lenda. Já ouvimos falar dessa história. Não é verdade. Muitas pessoas acreditam nisso, mas também há muitas pessoas que acreditam em discos voadores, não?

Aliás, há muitas novas bandas que cantam mascaradas hoje em dia, como o Slipknot. Você gosta disso?

É legal, não tenho o menor problema com isso. Eu acho que os novos músicos devem fazer o que acham que têm de fazer. Não importa o que eu acho disso. Mas o princípio deve ser aquele.

A atual formação do Kiss está trabalhando em novo CD. Quando sai?

Sim, vamos lançar um álbum com 12 ou 15 canções inéditas. Já gravamos vocais e guitarras para quatro delas. Devemos concluir o álbum em julho e lançá-lo em setembro. Eu posso definir o som da seguinte forma: é um disco "rock?n?rollover", com uma sonoridade mid-seventies, veloz, pesado. Não haverá nenhum rap, nenhuma música country. É difícil definir música, mas se você mantiver sua mente ligada nessa definição, vai saber muito bem do que se trata. É o som clássico do Kiss.

Você sabe: desde os anos 1990, tudo vem mudando na indústria musical. Hoje, as trocas de arquivos musicais pela internet fazem com que o comércio de música esteja completamente diferente de quando vocês vendiam milhões. Como vê isso?

Algo tem de mudar. Ter algo de graça, para mim, é roubo. Nós não fazemos música por caridade. Escrever uma canção, gravá-la, produzi-la, lançá-la, tudo isso custa. Penso que algo já está mudando, hoje se pode vender música direto em cadeias como Best Buy e Wal-Mart. Minha opinião é que, se a música é de graça, você vai acabar matando todos os novos bebês da música e todos os clássicos. Nunca mais você ouvirá um novo Appetite for Destruction.

Você participa de dois reality shows na televisão, Escola do Rock e uma série já famosa aqui no Brasil, Uma Família Joia (Family Jewels, exibida no canal A&E). Qual é a conexão que você vê entre música e esse tipo de programa?

É tudo a mesma coisa. Quando você grava, você assina com uma companhia de discos, vai ao estúdio, produz, assina contratos de divulgação. Quando escreve um livro, assina com uma editora, vai a eventos de promoção, busca seus direitos autorais. A TV me contratou, e me paga para isso. É uma atividade de criação, como todas as outras.

No show Uma Família Joia você está acompanhado de seus filhos, Nick e Sophie, e de sua mulher, a ex-coelhinha Shannon Tweed. Além da série de TV, o que mais eles compartilham com você artisticamente?

Bom, Nick e Sophie estudam piano e guitarra. Eu disse a eles que, se aprenderem a ler música, poderão fazer música com confiança. Nick também é cartunista. Ele escreve e desenha o gibi Incarnate, que será lançado na Comic Con de San Diego. Sophie é agitada, pratica basquete, tracking. Nós somos sortudos e abençoados.

Ouvi dizer que você também joga golfe, como o Alice Cooper.

Não jogo nada. Não tenho hobbies. Ou melhor: tenho o melhor hobby do mundo, que é ser Gene Simmons do Kiss. É um hobby para o qual não há regras. E eu nunca tenho de perguntar a alguém como devo me comportar ou o que fazer. Mesmo o papa tem de perguntar pra alguém. Eu não tenho mestre nem patrão.


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Aqui pro Gene, ó:



Stela e Fernando, Curitiba-PR, no último dia 14 de março.

Thank you for having us.



Vai ser difícil superar a emoção vivida na noite do último domingo na Chácara do Jóquei Club, em São Paulo. No palco, a banda inglesa Radiohead apresentava-se pela primeira vez no Brasil e expandia-se em uma grandeza maior do que o som, a iluminação e a cenografia perfeita.

Todos elementos compuseram uma simbiose perfeita, finalizada pela platéia, um coro formado por um uníssono potente. Trinta mil vozes embaladas pela maestria daqueles que conduziram um espetáculo, latente na minha lembrança como se não houvesse terminado.

Foram 2h21 vividas no universo paralelo capitaneado por Thom Yorke, indescritível por palavras. O show do Radiohead levou-me a uma dimensão mágica, aquele tipo de lugar onde somente a música mais sublime pode transpor. Não estávamos 'além do arco-íris', como na clássica composição de Harold Arlen, com letra de E.Y. Harburg (a do filme O Mágico de Oz). Estávamos dentro dele: In Rainbows!
E o que eu previa se tratar somente de um bom show regado de melancolia, acabou como momentos intermitentes de felicidade. Naqueles 141 minutos, I lost myself. I lost myself.

Obrigada, Radiohead, por nos acolher.

...






Uma nota: até o show, Radiohead era apenas mais uma banda que eu gostava muito.

segunda-feira, março 09, 2009

O sonho de Mussolini: conhecer a Estação de Tratamento de Água




Nada de conquista da Etiópia, Grécia ou Albânia ou o controle da imprensa. Um dos sonhos de Mussolini é conhecer o processo de tratamento de água na cidade onde vive.

Sorridente e expressivo: é como se apresenta o tal Mussolini (sim, nome da certidão de nascimento), um simpático morador da região central de Jacareí-SP.

Nascido certamente antes da derrocada do ditador italiano em 1945 (eu o conheci hoje, na fila de idosos no setor de Atendimento ao Público da autarquia em que trabalho, daí o indício mais evidente da idade), o homônimo do ditador encara com naturalidade o estranhamento diante de seu nome, que anotei a pedido dele próprio (tentei não ser indelicada, mas acabei soltando a pergunta 'Mussolini, como o italiano?'). Sem cerimônia, ele respondeu: "É, meu pai gostava do ditador e era alinhado ao Facismo", disse-me, sorrindo.

Todo prosa, Mussolini vai me contando sobre uma característica de seu pai: dar nomes um tanto diferentes aos filhos. "Tem um que se chama Argentino. O outro é Alonso, um é Pierre e a minha irmã tem um nome mais comum, Henriquieta. Mas de ditador mesmo, só o meu", diz.

Sem esboçar nenhuma característica próxima a do ditador que inspirou o pai a nomeá-lo, Mussolini não tem sonhos muito grandes. Um deles é conhecer a Estação de Tratamento de Água de Jacareí.
"Sempre quis ir lá, desde os tempos do Toninho Nunes (prefeito de Jacareí nos anos 70) e saber como a água é tratada. Tenho muita curiosidade. Posso ir um dia?", pergunta-me.

Tanta simpatia deixou-me tentada a encaixar o Mussolini na visita exclusiva de mulheres que programamos ao local amanhã, em comemoração ao Dia da Mulher. Enquanto conversamos, descubro que não sou a única a me afeiçoar ao senhor, frequentador conhecido do Setor de Atendimento. Todo prosa, um dos atendentes me diz: "Ê, Stelinha, vi que já tá de conversa com o senhor Mussolini!".

Anoto o telefone e prometo colocá-lo na próxima visita à Estação.Pelas bandas de cá, nosso Mussolini também consegue persuadir os seus conterrâneos. Felizmente, por seu bom humor e simplicidade. Bem distante do egocentrismo do Mussolini 'original'.

Imagem: Mussolini e Hitler

sexta-feira, março 06, 2009

Da janela da minha sala (sem Photoshop).

Dia 5 de março, às 18h39. Olho da janela da minha sala e vejo um fenômeno: o céu, de tão alaranjado, pintou com suas cores os imóveis da cidade. Não foi um pôr-do-sol comum: parecia que os tons do céu desciam ao chão. Lindo espetáculo nessa vida, que vale a pena pelas pequenas belezas.

Imagem capturada de dentro do prédio do SAAE, na praça Anchienta (da Matriz), centro, Jacareí-SP.





quinta-feira, março 05, 2009

Liberdade sitiada na livraria. Ou, sobre como escolher um presente existencialista




“O homem é condenado a ser livre”. Pude verificar in loco essa máxima de Jean-Paul Sartre a partir de uma atividade simples: escolher um presente de aniversário. A liberdade pressupõe uma responsabilidade pelos atos e ficou difícil escolher --e ser livre para tal-- sem o medo de uma gafe.

Primeiro pensei no tipo de presente mais apropriado ao aniversariante. Cigarrilhas trés chic, vinhos chilenos ou mesmo um livro sobre a arte da enologia (esse custava R$ 79) e outro com todas canções do Chico (o Buarque, não o Anísio) passaram pelas minhas mãos. Porém, mesmo aparentemente livre para tal escolha, estou sob as amarras do sistema capitalista. Logo, se escolhesse um presente mais erudito e digno, correria o risco de não honrar com o pagamento do meu condomínio no mês.

Procurei então um presentinho, e não um preseeeeente. Uma lembrancinha, como dizem por aí. O importante é agradar o interlocutor, que pelo perfil, tem um quê de existencialista e por esse mesmo motivo, podia dizer-me abertamente um “ah, não gostei”, sem magoar aquela que o presenteou.

Depois de uns 40 minutos olhando na prateleira de uma livraria de pequeno porte (e com uma vasta coleção de artigos religiosos) de minha cidade, chega a vendedora com o tradicional: posso ajudar?
Respondo com o básico, porém educado, “não, obrigada”. Para mim, não sou eu quem escolhe os livros, são eles que vêm pra minhas mãos. E por esse motivo, odeio ter minha liberdade (sartriana ou não) tolida pelos vendedores de livraria.
Digo que é para um aniversariante que completa 35 anos amanhã. E lá vem ela me indicar a prateleira de... auto-ajuda. Por Deus ou Deeprak Chopra! Eu não compraria auto-ajuda nem pra minha mãe, que gosta do gênero.
Okay, sei se tratar de preconceito, mas prefiro dar um livro do Paulo Coelho a presentear alguém com “Os sete hábitos das pessoas muito eficazes”.

Com a mulher na minha cola, sigo lentamente procurando algo. Foi nessa hora que a antologia do Chico Buarque me saltou aos olhos na prateleira. Logo abaixo, no caos das estantes mal arrumadas, “Entre quatro paredes”, de Jean-Paul Sartre, parece me fitar.

Abro o exemplar e a primeira frase que leio, na orelha do livro, é: “O inferno são os outros”. Lançado em 1945, "Entre quatro paredes" é uma peça de um ato único, com três personagens que passariam a eternidade trancafiados no inferno. O lugar está distante da imagem prevista pelo senso comum: trata-se de uma sala permanentemente iluminada e sem janelas. O inferno, para ele, é a necessidade de tolerar um ao outro. Uma das personagens é Estelle (coincidentemente, Stela, em francês, e achei 'temático' meu nome constar na obra, ainda que indiretamente e dando voz à fútil Estelle).

Por um segundo, penso em desistir e comprar "1984" de George Orwell. Mas aí me lembro de Sartre e do 'lance' da gente ser a totalidade do que ainda não tem, "do que poderia ter". Desisto de levar Orwell e volto à peça.

Bingo! Escolho, pago e tiro a vendedora do meu encalço. Não terei que aturar mais o controle da minha varredura nas prateleiras. Liberdade!



Stela
5/3/2009, às 18h49

(Nesse momento faz uma luz tão incrivelmente vermelha no céu da minha terra que todas as casas parecem pintadas de rosa. Bonito mesmo).

terça-feira, fevereiro 10, 2009

No meu livro



segundo ato: a espera
pessoas devem ter palavra.
pessoas devem ter.
pessoas devem.

terceiro e último ato: o adeus
pessoas silênciam.
do nada.
pessoas inscritas.
em página virada.

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terça-feira, janeiro 27, 2009

Domingo





Sweet´a








Ele é um doce. Mas sou eu quem me desmancho em calda.






(Imagem extraída de http://andresantana.wordpress.com/2007/09/05/wallpaper-sweet/ André Santana é artista gráfico e tem ótimos trabalhos)

sexta-feira, janeiro 23, 2009



Ela decidiu que escreveria uma carta, muito embora ficasse receosa quanto ao fato. Pensava: palavras colocadas no papel não se desmancham ao vento e parecem dar importância maior a qualquer fato.

Provavelmente, era mais uma daquelas coisas geradas na infância, mas pequenas demais para serem abordadas com o terapeuta.
Uma vez, tomara uma advertência por escrito de seu professor de matemática da sexta série. Ele costumava falar pouco e nos dias de prova passava de carteira em carteira batendo os dedos indicadores e anulares nas mesas dos alunos: um som baixo, mas absurdamente ensurdecedor. Um dia, numa dessas andanças, o professor alto, magro e careca, de feições quase rudimentares, deixou-lhe um bilhetinho ao lado da prova, sem dizer nenhuma palavra em voz alta: “se copiar do colega, coloco você pra fora”. E ela não estava copiando nada, apenas distraiu-se com uns pássaros coloridos do outro lado da janela. Naquele dia, voltou triste para casa. “Era honesta demais para copiar!”, repetia a si mesma. Sentiu-se injustiçada. Foi ali que aprendeu que palavras escritas doem mais.

Passados 20 anos, ela tinha em mãos o papel e a caneta azul e um tanto falha. Passou mais de uma hora pensando no professor e intercalando lembranças do passado distante com as mais recentes, vividas com aquele que havia tomado parte dos seus pensamentos nos últimos dias.
Ela procurava uma forma de começar tal carta, mas nada lhe saía: nenhuma palavra para preencher a letra cursiva e pouco inteligível que desenvolvera ao longos dos anos.

Olhou para fora e viu uns pássaros coloridos pousados na copa da árvore visível da sua sala de estar. E foi assim que a carta virou um bilhete. Nele, resumiu a sensação tão corrosiva, uma mescla de saudade e mágoa, felicidade e dor. Voltando-se ao papel, escreveu:

“Se não aparecer mais, coloco-te pra fora do meu coração”.

Vida dura



www.malvados.com.br

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Escolhas




Acendeu um cigarro e olhou à direita para fitar a paisagem. Mesmo nesses dias cinzentos, o verde vale que começava do outro lado da rua mostrava-se extremamente vibrante. Era verão e as chuvas fortes que castigavam outras regiões da cidade não abalavam as árvores do outro lado da rua. E mesmo as de copa menos farta pareciam passar incólumes aos raios das tempestades que atingiam diariamente essas bandas de cá.

De pernas cruzadas, ela balançava o pé esquerdo apressadamente. Tique habitual a qualquer ansioso sem ansiolíticos. Olhou novamente para o horizonte delineado pelas montanhas, mas a imagem ficara turva em função das gotas da chuva que se tornava mais espessa e atingia o vidro do Café onde ela o esperava.
Abaixou os olhos e quando olhou novamente pela vidraça viu-o entrando pela porta de madeira. Sorriram. Ele se curvara para beijá-la no rosto. Antes mesmo que acomodasse na cadeira pesada de madeira a frente dela, fora indagado de súbito, sem um 'boa tarde' ou outras formalidades usadas para introduzir qualquer conversa.

- Eu sou 'escolhível'?
- 'Escolhível'?, respondeu ele com o sorriso largo que lhe faziam sumir a cor dos olhos azuis, estranhando não só a pergunta, mas por imaginar uma mistura de escolha e sofrível.
- É, você me escolheria?

A dúvida pairava em sua mente há dias desde o momento em que ele revelara sua indisposição para batalhas amorosas. "Nunca escolho quem eu quero, sempre sou escolhido por uma terceira pessoa, que não me interessava em princípio".
A declaração passara em branco no momento da conversa anterior, mas depois soava como um desafio. "As mulheres sempre escolhem. Invariavelmente", havia dito quando o assunto veio à tona na primeira vez.
Mas, posteriormente, uma série de motivos lhe causou o incômodo comparável aquele deixado pelo refluxo gástrico na garganta. Não por ele, mas por ela mesma. A afirmação daquele homem abalara algo aparentemente sólido nela. Passou horas pensando nos seus relacionamentos –os mais revelantes, pelo menos— na tentativa de decifrar em qual grupo de pessoas estava. Caça ou caçadores. Escolhidos (que ela preferia pensar como ‘escolhíveis’, mesmo contrariando a gramática formal) ou selecionadores?

Sim, havia sido eleita algumas vezes. Poucas, comparadas ao "sempre sou escolhido" proferido por aquele homem. Em geral, dela partiam os primeiros olhares e mesmo quando seu interlocutor pensava estar à frente da iniciativa (e partir para o primeiro toque físico) era ela quem o chamava para si, “talvez pela força do pensamento”, como costumava pensar.

Mas o maior incômodo advinha de uma constatação tida 'a posteriori' naquela conversa. Ela descobriu que o achava com “alto potencial para escolha”, pela sua companhia agradável e perspicácia.
Ela começava a gostar de coisas singelas nele, como a forma de seus dentes mais pontiagudos e não necessariamente alinhados –mais evidentes quando sorria.
Às vezes, ele parecia um menino pelo conjunto de sua gestualidade aliado a sua brincadeira com a fonética --trocadilhos ora literatos, ora infantis.
Gostava de sua pele pintada das mãos ao pescoço e do constrate do cachecol preto com seus cabelos vermelhos. Ele tinha um jeito bonito de encostar no carro, embora fosse menos elegante ao fumar do que pressupunha. Todos esses fatores transformavam-no em um ser 'escolhível', pensava. E chegara a essa conclusão apenas depois de racionalizar a incômoda conversa inicial. Por isso mesmo clamava em descobrir se reunia fatores capazes de colocá-la no mesmo grupo: o dos 'escolhíveis'.

Uma lembrança recente interrompeu o fluxo de pensamento que a levava para fora de si, perto dele. No Natal havia recebido um beijo surpresa de outra pessoa.
Acolheu, por alguns segundos e meio envergonhada, a boca macia, quente e úmida de Cabernet Sauvignon daquele que a tinha escolhido. Nunca tinha pensado em beijá-lo antes, desde que se tornaram amigos, mas a estranheza foi substituída por um sentimento curioso, de cumplicidade e segredo, muito embora tal fato não precisasse ser calado. Não fora o início de um romance, nem o fim de uma amizade. Fora algo físico, tanto que ela levara os dedos indicador e médio aos lábios depois do ocorrido e fechara os olhos por um tempo até maior do que o tempo pelo qual as línguas se tocaram. Precisava tocar-se para ter certeza da realização. Fora como a sensação do primeiro beijo, pensou.

Mas as festas de fim de ano já haviam passado e a boca que estava a sua frente não era a mesma do toque inesperado e os olhos ali não eram verdes, mas azuis. O mesmo azul quase oculto pelo movimento dos músculos da sua face provocado pelo sorriso ao ser questionado.

Uma enxurrada de pensamentos surgiam enquanto ela esperava as palavras dele brotarem, mas sua história recente -passada em frames tão rápidos na sua memória quanto inserções subliminares de filmes- tivessem lhe trazido uma autoresposta.
“Todo mundo é ‘escolhível’, independentemente de reciprocidade”, ela concluíra em pensamento. Sorriu e acendeu um novo cigarro. Lá fora, a chuva continuava a atingir o verde vale.

Stela, sob licença poética. Porque nem tudo que é autobiográfico é biografia.



Reprodução do Digestivo Cultural de hoje (http://www.digestivocultural.com.br/)

"Ame-me para sempre. Só não engorde, me aborreça ou envelheça."

Hugh MacLeod, o cartunista global da internet, mais uma vez (via @eduacarvalho).

Julio Daio Borges
2/1/2009 à 00h30

Polaroid




Quando menina, insistia em piscar os olhos com força cada vez que via uma cena merecedora de ser registrada na memória. Era como se o ato físico do piscar conseguisse produzir na retina uma fotografia do momento e, assim, não descartar da memória a felicidade do instante.

Meu sonho, à época, era uma Polaroid –nome da marca, mas que servia pra denominar aquelas máquinas cujas imagens saíam instantaneamente, com a clássica borda branca (um luxo para poucos nos anos 80).

Tinha medo de perder aquelas pequenas peças de felicidade. Achava que as boas coisas da infância ficariam esquecidas um dia –motivo pelo qual eu atribuía a cara sisuda e preocupada dos adultos. “Não se lembram de como foram felizes quando pequenos. Prometo a mim mesma que não vou me esquecer”.

Não queria deixar apagar dias como o que passei com minha família no Horto Florestal, em Campos do Jordão, quando brinquei com os girinos à beira do lago. Queria me lembrar das guerras de mamonas e das amoras que roubava no quintal numa viela barrenta, perto da minha casa. Gostava dos azulejos azuis da cozinha e de dormir de barriga pra cima no quintal, com meu gato ('Fofão', preto, peludo e cego de um olho) debruçado sobre mim e acompanhando o vai e vem da minha caixa toráxica. Eu não era necessariamente feliz naquele período, mas havia uma plasticidade naquela cena da qual me lembro com perfeição. Havia beleza mesmo nos dias tristes, assim como há uma singeleza incomparável nos dias cinzentos de garoa.

Talvez tenha sido naquela época, quando eu tinha menos de oito anos de idade, que comecei a pensar que os dias de chuva, e não os de sol, deveriam ditar a fotografia de todos os encontros interessante do cinema. Uma vez assistira fragmentos de 'Casablanca' e fiquei com aquela emoção produzida pela imagem da chuva no filme. Apertando minhas pálpebras, fotografei na memória aquele instante, talvez o dia em que o amor romântico, mesmo em preto e branco, começara a fazer sentido pra mim.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Fundamental é mesmo.





Ser solteiro não significa ser só. Gosto de chegar em casa, tirar os sapatos e não lavar a louça na pia há dois dias. De ir ao cinema e passear pela beira do rio sem nenhum acompanhante. A diferença é se o verbo está ou não no condicional.
Deve-se querer fazer essas coisas sem um par. Do contrário, teremos a solidão.
Hoje senti um pouco dela. Queria alguém pra ir comigo ao cinema, mas todos os meus amigos que topariam o referido filme comigo estão viajando ou ocupados.
Aproveitei para tentar visitar um casal de amigos. Não rolou. Estou feliz porque continuarei no trabalho em 2009, o que era uma incógnita a todos servidores em cargos de comissão após as eleições municipais. Queria compartilhar com alguém meu entusiasmo. 2009 soava-me desafiador, com novo chefe e a qualificação do mestrado já em maio. Agora, com a definição do meu trabalho, estava mais tranquila, mas ainda sem ninguém pra comemorar (o Henrique ficara na casa do pai). Também ganhei um lenço lindo de presente da estagiária que trabalha comigo. Aparentemente pequenas coisas, mas grandes o suficiente para me render uma festa interna.
Por essas e outras me senti extraordinariamente solitária durante algumas horas.
Substitui a melancolia por rever um filme de tema tão piegas que prefiro o original, em inglês: The Holiday. Eu já havia visto e então não haveria más surpresas: sucesso garantido aqui em casa! Pensei: ver o Jude Law caindo de amores por uma tresloucada insensível seria uma boa. Abri algumas cervejas. Ri e quase chorei com a Kate Winslet --que, ao lado do Jude (para íntimas), está no meu top five de celebridades hollywoodianas favoritas.
Comi um pacote de amendoim. E, confesso, cheguei a dar gritinhos com a "atuação" apaixonante de Mr. Law.
Liguei pra um amigo só pra dizer que ele parecia o Jack Black --uma revelação pra mim aquela hora da noite. Liguei pra minha amiga só pra saber como estavam as coisas em Floripa na noite de hoje.
Vou ouvir Yo La Tengo e ler um quadrinho da Mojo Books (www.mojobooks.com.br) sobre os Beatles que baixei hoje (oficialmente!) de graça do site, graças a matéria publicada nessa data na Ilustrada. Termino o texto no meu notebook cuja última parcela eu pagarei amanhã (viva!).
Tenho que discordar de Vinícius. Fundamental são tantas coisas além do amor. Engraçado mesmo é se sentir feliz sozinho. Como eu termino essa noite.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Luz e sombras



Museu de Antropologia do Vale do Paraíba (MAV), captado por mim em uma dessas noites de dezembro.