segunda-feira, abril 20, 2009

Um novo amor



Cada hora padeço de um novo amor, sem esquecer o antecessor. Assim, vou colecionando amores que, em geral, só me causam alegria. Meu novo romance teve seu prelúdio graças a um outro, mas confirmou-se na tarde de hoje: por Deus, eu AMO BELCHIOR.




Foi por causa de gravação de ‘Palo Seco’, pelos Los Hermanos (um outro amor antigo) que conheci a obra de Belchior. A música consta no disco ‘Alucinação’. Lançado em 1976, ‘Alucinação’ é incrível. De fazer chorar.

Quando pequena, meus pais ouviam o bigodudo à exaustão (engraçado como tenho poucas memórias da minha convivência com meu pai, mas elas estão geralmente associadas à música). Para meus ouvidos infantis, aquele voz anasalada soava com tanto estranhamento que cresci sem dar atenção ao compositor.

O máximo que eu sabia de sua obra são as clássicas “Apenas um rapaz latino americano”, “Medo de avião” e “Como nossos pais”, esta última na voz de Elis Regina.

Mas o disco é realmente incrível. E as letras de tão íntimas que se tornam muito reconfortantes porque nos mostra como, apesar da singularidade de cada um, os sentimentos humanos são iguais.

Sabe aquela obviedade e implicidade que embala e conforta? Belchior é isso.
“Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol, quando você entrou em mim como um sol no quintal [adoro essa parte]. Daí um analista amigo meu disse que eu não vou ser feliz direito porque o amor é uma coisa mais profunda do que um encontro casual”, diz um trecho de ‘Divina Comédia Humana’, do disco ‘Um concerto a palo seco’.



Em algumas composições, Belchior lembra-me muito Raul. Pela resistência aos padrões formais de comportamento, pelo toque meio brejeiro das letras e talvez apenas pela sonoridade da época.

‘Alucinação’, a música tema do disco, é linda. Deveria constar no repertório de todas festinhas equipadas com violões e jovenzinhos dispostos a boas composições.
‘Um concerto a palo seco’ têm violões tão bem trabalhados que suspeito da participação de Raphael Rabello (ou pelo menos, de sua influência). O violão flamenco no início de ‘Galos, noites e quintais’ é de levar lágrimas aos olhos: “eu era alegre como um rio. Um bicho, um bando de pardais. Como um galo quando havia galo, noites e quintais. (...) Não sou feliz mas não sou mudo. Hoje canto muito mais”, canta.

Na próxima festa, sarau ou luau em que eu estiver, solicitarei como fã fervorosa desse novo amor: “toca Belchior!”.
Porque “eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês”.

Triste fim do rock na quaresma




Uma das melhores coisas que ouvi nos últimos anos deu, recentemente, seu último suspiro.
Morreu e não sei de qual patologia a banda de rock independente Mentecapto, de Mogi das Cruzes (SP).
O fim do ‘Menteca’, apelido íntimo entre os amigos da banda, parece o prelúdio de um triste fim para o rock mogiano. Depois deles, a Motocontínuo, também fez ontem seu último show no Divina Comédia, reduto moderninho-underground bem bacana de Mogi, cidade berço de bandas de rock independentes incríveis, como Maquiladora (Somata também acabou?).

Vi um show do Mentecapto pela primeira vez em 2008, quando meus papos semanais com o Guilherme, do Motocontínuo, deixava-me atualizada e animada com os rumos do rock mogiano. Ufanista com o movimento independente de sua terra natal, o Gui não exagerava ao listar as qualidades do Mentecapto. “Foda!”, ele sempre me dizia ao se referir à banda.

O show da banda era realmente incrível. A banda era, ao mesmo tempo, de uma intensidade absurda e uma precisão ímpar evidenciada pelo domínio dos músicos de seus instrumentos. O resultado era uma coisa barulhenta, mas muito bem feita. Apesar da precariedade do som-palco-iluminação da infraestrutura do local onde vi os “menteca” pela primeira vez, fiquei insandescida com a apresentação. E eu não estava só: pelo menos uma dezena de fãs acompanhando o show em uma catarse entre platéia e músicos.

Ontem, ao saber do fim já anunciado para o Motocontínuo, bateu-me um bodão. Primeiro porque eu não poderia estar no show e ouvir músicas como a ótima “A dança do acaso e do lamento” e outras tão boas quanto. Segundo, porque de certa forma, a ‘Moto’ faz parte da trilha sonora da minha vida e o Guilherme, além de ser um músico extremamente criativo, é um amigo querido que ganhei de presente em 2008.

Resta esperar que uma possível união de músicos dos ‘moto’ e ‘menteca’ nos renda bons frutos para o roquenrol. Seja por aqui ou em qualquer lugar distante.




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Para quem quiser conhecer mais sobre as bandas, recomendo:
http://www.myspace.com/mentecapto
http://www.myspace.com/motocontinuo
http://www.myspace.com/maquiladorayeahv
http://tramavirtual.uol.com.br/artista.jsp?id=67524

De quebra, ouçam a banda Seamus, de Taubaté, cidade aqui do meu ‘ladim’.
http://www.myspace.com/sseamus

terça-feira, abril 14, 2009

Comendo a quilo?

Cacófaton é o nome rebuscado pra cacofonia. Palavras feias pra designar a conjunção de outras que, unidas em uma frase ou expressão, resultam em duplo sentido.

Volta e meia, eles aparecem por aí. São mais comuns no linguajar do dia-a-dia, mas não é raro encontrá-los em plaquinhas nas beiras de estrada. O duro é quando a cacofonia aparece instituída na publicidade.

Recebi hoje um panfleto de um restaurante que resolveu promover sua propaganda com a seguinte mensagem em destaque:

"A deliciosa maneira de comer a quilo".


O mais interessante é que o mesmo panfleto oferece um espaço privê para reuniões. Eita mente poluída, sô, diria minha avó!

Certamente, pela boa reputação de seus proprietários, o cacófaton da referida propaganda passou batido e ninguém pensou no "a quilo" como "aquilo". Como cantaria Herbert Vianna, "na bagunça do dia-a-dia", "sequestraram a fonética".

Depois dessa, só ouvindo Rodolfo e ET. Se eu lavo, eu cozinho. E ninguém tem nada com isso!

sábado, abril 04, 2009

Desses dias mais lindos de nossas vidas

http://www.youtube.com/watch?v=pw8LJkabdlA

Eu não consigo me esquecer dessa noite. Natural, quando se vive um dos dias mais lindos de sua vida.

quarta-feira, abril 01, 2009

No meio do caminho, tinha uma pedra.



‘A pedra arde’ é meu livro infantil favorito. Escrito por Eduardo Galeano (o mesmo escritor uruguaio de ‘As veias abertas da América Latina’) e ilustrado por Luis de Horna, o livro conta a história de um menino que descobre uma pedra mágica e leva até ela um velhinho responsável por ajudá-lo durante uma situação difícil.

Achei o livro por acaso, no sebo Alfarrábios, em São José dos Campos (no mesmo dia em que paguei um micão com o dr. Data Venia, mas isso é outra história). Foi antes do meu filho aprender a ler, em agosto de 2005, quando o pequeno Henrique tinha quatro anos de idade e ainda não era fã de gibis, de Star Wars ou da música Garota de Ipanema.

Talvez essa coisa de gostar do livro e desse título –A pedra arde— tenham influenciado meu subconsciente a transformar uma pedra em uma espécie de amuleto mágico. Foi há duas semanas, quando comecei a carregar uma pedrinha na bolsa.

Era madrugada e eu já havia caminhado uns cinco quilômetros até então por uma estrada vicinal e sem iluminação da qual não sei o nome, numa cidade que mal conheço, quando tenho um semi-rompante de raiva. Na verdade, raiva não é palavra apropriada. Era mais uma sensação daquelas do tipo “que-estou-fazendo-aqui-quando-poderia-estar-em-casa-dormindo?” quando um carro passa por mim e o facho de luz dos faróis ilumina o breu e mostra-me o chão irregular. Sobre ele, várias pedrinhas.

Naquele momento, penso em pegar alguma e atirar uns 20 metros à frente. O pensamento voou para longe mais rápido que mensagem subliminar em frame de “O Clube da Luta”. Nem que eu tivesse um alvo, conseguiria acertar naquela escuridão e, além do mais, não sou do tipo que joga pedras ao Deus-dará e tampouco em qualquer pessoa.

Mas a pedrinha ficou na minha mão e acomodada ali serviu-me como um acalento. A pedra materializou um sentimento que não necessariamente é negativo: talvez fosse como a caneta nas mãos de um orador tímido. A pedrinha, simpática (e já humanizada, a essa hora), virou um símbolo de “sim, estamos todos sós”. E, por mais estranho que possa soar, a tal pedrinha virou uma companheira constante, um tipo de amuleto para me dar força em momentos difícieis. Mesmo sem ser oval (e famosa) como a bola de Tom Hanks em ‘Náufrago’, ela tornou-se a minha ‘Wiiiiiilsoooooon’.

Agora, na minha fantasquice, agradeço às forças do Cosmos que me mandaram a pedrinha. E ela estava lá, bem no meio do meu caminho.

Beijomeliga, Tas

Não faço a menor ideia da origem da expressão ‘beijo me liga’. Já a vi por aí em alguns blogs de gente famosa e de peso –gente como Marcelo Tas, por exemplo.
Uma vez mandei um e-mail para o Marcelo Tas declarando-me fã de seu trabalho, desde o professor Tibúrcio (eu nem me lembrava do Ernesto Varela. Pra mim, o que importava nos anos 80 era o Rá-Tim-Bum) e depois com o Vitrine. Fiquei borocochô porque o Tas parecia tão íntimo –coisa natural de quem figura na tevê— que fiquei triste com a ausência mesmo de uma resposta automática. Eu era adolescente, pô, mais sensível que agora. E meu e-mail não foi piegas –pontuei coisas interessantes (pelo menos foi meu pensamento à época) e eu não estava interessada no sorriso do simpático careca. Era uma admiração intelectual, algo muito diferente de gente maluca que segue o apresentador de tevê e xinga a namorada do cara pelo Orkut (ops, e isso é fato verídico, minha gente).

E os anos se passaram e eu nunca nem tinha visto o CQC (confissão número 898 do blog: só vejo tevê pelo Youtube e nunca assisti o referido programa pela mídia convencional) quando dou de cara com o Marcelo Tas em um evento na comedoria do Sesc da avenida Paulista, em 2008.
Foi assim: eu estava no lançamento do livro Mutações, que é a coletânea de um seminário promovido pela USP, UNB e UFRJ, do qual participava, e um tanto desloucada em meio a um povo extra-large-cool, encontrei uma garota da minha sala nas aulas do Mauro Wilton, lá da ECA/USP. Toda pomposa, não hesitei em seguir com cara de intelectual na direção da guria (de quem não sei o nome, mas sentávamos perto uma da outra e nos dávamos ‘boa noite’, o suficiente para garantir na mulher um porto seguro naquela noite).

Desvio de uma cinco pessoas e, quando chego até ela, portando um sorrisão de alívio, descubro a identidade do interlocutor da conversa da garota, o cara careca e bem vestido de costas era o Marcelo Tas!
Envergonhada, dou um olá coletivo aos dois, daquele mais gestual (com aceno de mão e voz fraca) e sigo em frente. Em menos de um segundo, o porto seguro da garota ficou mais vulnerável pra mim que o Titanic pra Rose e Jack após o choque com o iceberg; Temi que o meu antigo segredo de fã renegada pudesse ser revelado (‘oi, eu sou a garota que lhe escreveu um e-mail quando tinha menos de 20 anos dizendo o quanto gostava do Prof. Tibúrcio). Sumi de lá com meu pãozinho de tapioca em mãos. Beijomeliga, Marcelo!

quarta-feira, março 25, 2009

Gene Simmons é chato




Se acha o bam-bam-bam do roquenrol e o maior comedor de todos os tempos.
Faz reality show só porque é pago para tanto.
E desmistificou a lenda sobre a inspiração do Secos e Molhados.
Comecei a gostar de rock pelo Kiss, é fato.
Mas sou mais o U2 --estou preparada por uma cruxificação por dizer isso(se bem que o Bono é chato também!).


Abaixo, reproduzo entrevista com o lider do Kiss ao Jobatê Medeiros, no Estadão de hoje (25 de março de 2009).


Com a língua de fora, mas infatigáveis
Gene Simmons, do Kiss, fala ao Estado sobre o retorno ao Brasil, 10 anos depois
Jotabê MedeirosTamanho do texto? A A A A
Gene Simmons, baixista e vocalista do Kiss, é um herói do rock com a língua solta. Nos dois sentidos. Fala bastante e mostra ainda mais a língua. Aos 59 anos, o mais famoso linguarudo da música falou ao Estado na tarde de segunda-feira sobre a nova turnê da banda no Brasil.

Dez anos depois de sua última passagem pelo País (quando tocou para 40 mil pessoas em Interlagos), o grupo retorna com a turnê Kiss Alive/35 ao País. Toca pra 30 mil pessoas no dia 7 de abril, às 21h30, na Arena Anhembi, em São Paulo (no dia 8 é a vez da Praça da Apoteose, no Rio). Os ingressos custam R$ 170 (pista) e R$ 350 (Pista VIP), à venda no site Ticketmaster.com.

O Kiss vem sem Ace Frehley e Peter Criss, metade da formação original. Como você pode garantir que esse ainda é o Kiss?

Quando éramos jovens, nós achávamos que uma banda nunca poderia se separar senão ela perderia sua alma. Depois, a gente vê que isso não é verdade. Ringo Starr não era da formação original dos Beatles. Vários membros dos Stones saíram da banda, e os Stones não acabaram com a saída de Brian Jones. O Van Halen não acabou sem David Lee Roth. Quase todas as grandes bandas têm formações diferentes de quando começaram. Uma banda é como um time de futebol, não é só um jogador. Quando o time perde, todos perdem. Nós agora temos a responsabilidade de dar à banda a pegada de sempre, de manter o espírito rock?n?roll.

Desde os anos 1970, vocês se mantêm no topo, com legiões de fãs no mundo todo. Qual é o segredo dessa longevidade?

A única coisa que nunca muda, para mim, é que nós buscamos atender às expectativas dos fãs. Não se trata apenas de cantar umas músicas, mas de cantá-las como se fosse a primeira e a última vez. Nós sabemos do sacrifício de alguém comprar um tíquete, esperar com ansiedade o seu show preferido, espremer-se entre a multidão. Porque um dia nós também fomos fãs. Então, o que damos a eles é o nosso melhor, é o que chamamos de extravagância ao vivo.

Há uma espécie de lenda urbana aqui no Brasil que conta o seguinte: nos anos 1970, vocês estiveram no México e viram o show de um grupo brasileiro chamado Secos & Molhados. Dali, copiaram a ideia de se apresentar com maquiagem pesada, mascarados.

Conheço essa lenda. Já ouvimos falar dessa história. Não é verdade. Muitas pessoas acreditam nisso, mas também há muitas pessoas que acreditam em discos voadores, não?

Aliás, há muitas novas bandas que cantam mascaradas hoje em dia, como o Slipknot. Você gosta disso?

É legal, não tenho o menor problema com isso. Eu acho que os novos músicos devem fazer o que acham que têm de fazer. Não importa o que eu acho disso. Mas o princípio deve ser aquele.

A atual formação do Kiss está trabalhando em novo CD. Quando sai?

Sim, vamos lançar um álbum com 12 ou 15 canções inéditas. Já gravamos vocais e guitarras para quatro delas. Devemos concluir o álbum em julho e lançá-lo em setembro. Eu posso definir o som da seguinte forma: é um disco "rock?n?rollover", com uma sonoridade mid-seventies, veloz, pesado. Não haverá nenhum rap, nenhuma música country. É difícil definir música, mas se você mantiver sua mente ligada nessa definição, vai saber muito bem do que se trata. É o som clássico do Kiss.

Você sabe: desde os anos 1990, tudo vem mudando na indústria musical. Hoje, as trocas de arquivos musicais pela internet fazem com que o comércio de música esteja completamente diferente de quando vocês vendiam milhões. Como vê isso?

Algo tem de mudar. Ter algo de graça, para mim, é roubo. Nós não fazemos música por caridade. Escrever uma canção, gravá-la, produzi-la, lançá-la, tudo isso custa. Penso que algo já está mudando, hoje se pode vender música direto em cadeias como Best Buy e Wal-Mart. Minha opinião é que, se a música é de graça, você vai acabar matando todos os novos bebês da música e todos os clássicos. Nunca mais você ouvirá um novo Appetite for Destruction.

Você participa de dois reality shows na televisão, Escola do Rock e uma série já famosa aqui no Brasil, Uma Família Joia (Family Jewels, exibida no canal A&E). Qual é a conexão que você vê entre música e esse tipo de programa?

É tudo a mesma coisa. Quando você grava, você assina com uma companhia de discos, vai ao estúdio, produz, assina contratos de divulgação. Quando escreve um livro, assina com uma editora, vai a eventos de promoção, busca seus direitos autorais. A TV me contratou, e me paga para isso. É uma atividade de criação, como todas as outras.

No show Uma Família Joia você está acompanhado de seus filhos, Nick e Sophie, e de sua mulher, a ex-coelhinha Shannon Tweed. Além da série de TV, o que mais eles compartilham com você artisticamente?

Bom, Nick e Sophie estudam piano e guitarra. Eu disse a eles que, se aprenderem a ler música, poderão fazer música com confiança. Nick também é cartunista. Ele escreve e desenha o gibi Incarnate, que será lançado na Comic Con de San Diego. Sophie é agitada, pratica basquete, tracking. Nós somos sortudos e abençoados.

Ouvi dizer que você também joga golfe, como o Alice Cooper.

Não jogo nada. Não tenho hobbies. Ou melhor: tenho o melhor hobby do mundo, que é ser Gene Simmons do Kiss. É um hobby para o qual não há regras. E eu nunca tenho de perguntar a alguém como devo me comportar ou o que fazer. Mesmo o papa tem de perguntar pra alguém. Eu não tenho mestre nem patrão.


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Aqui pro Gene, ó:



Stela e Fernando, Curitiba-PR, no último dia 14 de março.

Thank you for having us.



Vai ser difícil superar a emoção vivida na noite do último domingo na Chácara do Jóquei Club, em São Paulo. No palco, a banda inglesa Radiohead apresentava-se pela primeira vez no Brasil e expandia-se em uma grandeza maior do que o som, a iluminação e a cenografia perfeita.

Todos elementos compuseram uma simbiose perfeita, finalizada pela platéia, um coro formado por um uníssono potente. Trinta mil vozes embaladas pela maestria daqueles que conduziram um espetáculo, latente na minha lembrança como se não houvesse terminado.

Foram 2h21 vividas no universo paralelo capitaneado por Thom Yorke, indescritível por palavras. O show do Radiohead levou-me a uma dimensão mágica, aquele tipo de lugar onde somente a música mais sublime pode transpor. Não estávamos 'além do arco-íris', como na clássica composição de Harold Arlen, com letra de E.Y. Harburg (a do filme O Mágico de Oz). Estávamos dentro dele: In Rainbows!
E o que eu previa se tratar somente de um bom show regado de melancolia, acabou como momentos intermitentes de felicidade. Naqueles 141 minutos, I lost myself. I lost myself.

Obrigada, Radiohead, por nos acolher.

...






Uma nota: até o show, Radiohead era apenas mais uma banda que eu gostava muito.

segunda-feira, março 09, 2009

O sonho de Mussolini: conhecer a Estação de Tratamento de Água




Nada de conquista da Etiópia, Grécia ou Albânia ou o controle da imprensa. Um dos sonhos de Mussolini é conhecer o processo de tratamento de água na cidade onde vive.

Sorridente e expressivo: é como se apresenta o tal Mussolini (sim, nome da certidão de nascimento), um simpático morador da região central de Jacareí-SP.

Nascido certamente antes da derrocada do ditador italiano em 1945 (eu o conheci hoje, na fila de idosos no setor de Atendimento ao Público da autarquia em que trabalho, daí o indício mais evidente da idade), o homônimo do ditador encara com naturalidade o estranhamento diante de seu nome, que anotei a pedido dele próprio (tentei não ser indelicada, mas acabei soltando a pergunta 'Mussolini, como o italiano?'). Sem cerimônia, ele respondeu: "É, meu pai gostava do ditador e era alinhado ao Facismo", disse-me, sorrindo.

Todo prosa, Mussolini vai me contando sobre uma característica de seu pai: dar nomes um tanto diferentes aos filhos. "Tem um que se chama Argentino. O outro é Alonso, um é Pierre e a minha irmã tem um nome mais comum, Henriquieta. Mas de ditador mesmo, só o meu", diz.

Sem esboçar nenhuma característica próxima a do ditador que inspirou o pai a nomeá-lo, Mussolini não tem sonhos muito grandes. Um deles é conhecer a Estação de Tratamento de Água de Jacareí.
"Sempre quis ir lá, desde os tempos do Toninho Nunes (prefeito de Jacareí nos anos 70) e saber como a água é tratada. Tenho muita curiosidade. Posso ir um dia?", pergunta-me.

Tanta simpatia deixou-me tentada a encaixar o Mussolini na visita exclusiva de mulheres que programamos ao local amanhã, em comemoração ao Dia da Mulher. Enquanto conversamos, descubro que não sou a única a me afeiçoar ao senhor, frequentador conhecido do Setor de Atendimento. Todo prosa, um dos atendentes me diz: "Ê, Stelinha, vi que já tá de conversa com o senhor Mussolini!".

Anoto o telefone e prometo colocá-lo na próxima visita à Estação.Pelas bandas de cá, nosso Mussolini também consegue persuadir os seus conterrâneos. Felizmente, por seu bom humor e simplicidade. Bem distante do egocentrismo do Mussolini 'original'.

Imagem: Mussolini e Hitler

sexta-feira, março 06, 2009

Da janela da minha sala (sem Photoshop).

Dia 5 de março, às 18h39. Olho da janela da minha sala e vejo um fenômeno: o céu, de tão alaranjado, pintou com suas cores os imóveis da cidade. Não foi um pôr-do-sol comum: parecia que os tons do céu desciam ao chão. Lindo espetáculo nessa vida, que vale a pena pelas pequenas belezas.

Imagem capturada de dentro do prédio do SAAE, na praça Anchienta (da Matriz), centro, Jacareí-SP.





quinta-feira, março 05, 2009

Liberdade sitiada na livraria. Ou, sobre como escolher um presente existencialista




“O homem é condenado a ser livre”. Pude verificar in loco essa máxima de Jean-Paul Sartre a partir de uma atividade simples: escolher um presente de aniversário. A liberdade pressupõe uma responsabilidade pelos atos e ficou difícil escolher --e ser livre para tal-- sem o medo de uma gafe.

Primeiro pensei no tipo de presente mais apropriado ao aniversariante. Cigarrilhas trés chic, vinhos chilenos ou mesmo um livro sobre a arte da enologia (esse custava R$ 79) e outro com todas canções do Chico (o Buarque, não o Anísio) passaram pelas minhas mãos. Porém, mesmo aparentemente livre para tal escolha, estou sob as amarras do sistema capitalista. Logo, se escolhesse um presente mais erudito e digno, correria o risco de não honrar com o pagamento do meu condomínio no mês.

Procurei então um presentinho, e não um preseeeeente. Uma lembrancinha, como dizem por aí. O importante é agradar o interlocutor, que pelo perfil, tem um quê de existencialista e por esse mesmo motivo, podia dizer-me abertamente um “ah, não gostei”, sem magoar aquela que o presenteou.

Depois de uns 40 minutos olhando na prateleira de uma livraria de pequeno porte (e com uma vasta coleção de artigos religiosos) de minha cidade, chega a vendedora com o tradicional: posso ajudar?
Respondo com o básico, porém educado, “não, obrigada”. Para mim, não sou eu quem escolhe os livros, são eles que vêm pra minhas mãos. E por esse motivo, odeio ter minha liberdade (sartriana ou não) tolida pelos vendedores de livraria.
Digo que é para um aniversariante que completa 35 anos amanhã. E lá vem ela me indicar a prateleira de... auto-ajuda. Por Deus ou Deeprak Chopra! Eu não compraria auto-ajuda nem pra minha mãe, que gosta do gênero.
Okay, sei se tratar de preconceito, mas prefiro dar um livro do Paulo Coelho a presentear alguém com “Os sete hábitos das pessoas muito eficazes”.

Com a mulher na minha cola, sigo lentamente procurando algo. Foi nessa hora que a antologia do Chico Buarque me saltou aos olhos na prateleira. Logo abaixo, no caos das estantes mal arrumadas, “Entre quatro paredes”, de Jean-Paul Sartre, parece me fitar.

Abro o exemplar e a primeira frase que leio, na orelha do livro, é: “O inferno são os outros”. Lançado em 1945, "Entre quatro paredes" é uma peça de um ato único, com três personagens que passariam a eternidade trancafiados no inferno. O lugar está distante da imagem prevista pelo senso comum: trata-se de uma sala permanentemente iluminada e sem janelas. O inferno, para ele, é a necessidade de tolerar um ao outro. Uma das personagens é Estelle (coincidentemente, Stela, em francês, e achei 'temático' meu nome constar na obra, ainda que indiretamente e dando voz à fútil Estelle).

Por um segundo, penso em desistir e comprar "1984" de George Orwell. Mas aí me lembro de Sartre e do 'lance' da gente ser a totalidade do que ainda não tem, "do que poderia ter". Desisto de levar Orwell e volto à peça.

Bingo! Escolho, pago e tiro a vendedora do meu encalço. Não terei que aturar mais o controle da minha varredura nas prateleiras. Liberdade!



Stela
5/3/2009, às 18h49

(Nesse momento faz uma luz tão incrivelmente vermelha no céu da minha terra que todas as casas parecem pintadas de rosa. Bonito mesmo).

terça-feira, fevereiro 10, 2009

No meu livro



segundo ato: a espera
pessoas devem ter palavra.
pessoas devem ter.
pessoas devem.

terceiro e último ato: o adeus
pessoas silênciam.
do nada.
pessoas inscritas.
em página virada.

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terça-feira, janeiro 27, 2009

Domingo





Sweet´a








Ele é um doce. Mas sou eu quem me desmancho em calda.






(Imagem extraída de http://andresantana.wordpress.com/2007/09/05/wallpaper-sweet/ André Santana é artista gráfico e tem ótimos trabalhos)

sexta-feira, janeiro 23, 2009



Ela decidiu que escreveria uma carta, muito embora ficasse receosa quanto ao fato. Pensava: palavras colocadas no papel não se desmancham ao vento e parecem dar importância maior a qualquer fato.

Provavelmente, era mais uma daquelas coisas geradas na infância, mas pequenas demais para serem abordadas com o terapeuta.
Uma vez, tomara uma advertência por escrito de seu professor de matemática da sexta série. Ele costumava falar pouco e nos dias de prova passava de carteira em carteira batendo os dedos indicadores e anulares nas mesas dos alunos: um som baixo, mas absurdamente ensurdecedor. Um dia, numa dessas andanças, o professor alto, magro e careca, de feições quase rudimentares, deixou-lhe um bilhetinho ao lado da prova, sem dizer nenhuma palavra em voz alta: “se copiar do colega, coloco você pra fora”. E ela não estava copiando nada, apenas distraiu-se com uns pássaros coloridos do outro lado da janela. Naquele dia, voltou triste para casa. “Era honesta demais para copiar!”, repetia a si mesma. Sentiu-se injustiçada. Foi ali que aprendeu que palavras escritas doem mais.

Passados 20 anos, ela tinha em mãos o papel e a caneta azul e um tanto falha. Passou mais de uma hora pensando no professor e intercalando lembranças do passado distante com as mais recentes, vividas com aquele que havia tomado parte dos seus pensamentos nos últimos dias.
Ela procurava uma forma de começar tal carta, mas nada lhe saía: nenhuma palavra para preencher a letra cursiva e pouco inteligível que desenvolvera ao longos dos anos.

Olhou para fora e viu uns pássaros coloridos pousados na copa da árvore visível da sua sala de estar. E foi assim que a carta virou um bilhete. Nele, resumiu a sensação tão corrosiva, uma mescla de saudade e mágoa, felicidade e dor. Voltando-se ao papel, escreveu:

“Se não aparecer mais, coloco-te pra fora do meu coração”.