Pintadas a mão por Stela, pessoa estranha porém bem-humorada e insistente na tentativa de imprimir cores em seu mundinho cotidiano mas raramente monocromático.
Calma,
estou de partida, mas você vai comigo nessa bagagem chamada sentimento. Vai
embora dentro de mim como as coisas que não podem ser deixadas para trás, como o sotaque
da terra onde eu nasci.
Vou e não te deixo para trás porque você é o que está à
frente, nas lentes dos meus óculos, onde lhe enxergarei mesmo sem te ver. Porque
você é o futuro construído a partir dos momentos nos quais coloriu o meu
passado recente.
Ao partir, é você que estará no meu sorriso quando eu me
lembrar do seu, no traçado de meia-lua da minha boca no momento em que eu me
lembrar da sua na minha.
Todos os
dias, daqui em diante, conviverei com a ansiedade de te ver novamente com a
tranquilidade de ter lhe encontrado – sensação parecida àquela ao me deitar no
seu peito, quando seu corpo me fez abrigo, e as batidas do meu coração pulsavam
fora de compasso, acima dos 84 batimentos por minuto.
Você vai
comigo porque é denso como ósmio e irídio, suave como a noite de Fitzgerald. Um
ser oblíquo nessa minha vida de caminhos paralelos. Estou de partida e você
também, porque um pouco irás comigo, aqui dentro do meu coração.
“Tem coisas que só saem da gente por escrito”, era o que estava grafado lá no muro vermelho na rua de pedregulhos irregulares e casas antigas e mortas, caminho obrigatório dela, por onde passava todo santo dia, na volta do trabalho. Na primeira vez que viu o cartaz, estremeceu. Correu para sua casa, duas ruas ladeira acima.
Abriu o pequeno portão de ferro e com a porta de vidro principal ainda aberta buscou seu baú posto no canto da sala. Uma sensação de alívio percorreu seu corpo quando encontrou lá todos os seus 15 diários incautos, páginas que guardavam ano a ano seus gritos ocultos. Eles eram sua comunicação silenciosa com o mundo, porque só com papel e a caneta em mãos conseguia ser ela mesma. Sua comunicação verbal era pífia: costumava trocar “lé por crê”, “pão por chão”. E o pior: em algumas ocasiões esse tipo próprio de dislexia verbal a tinha levado a criar rimas pobres e espontâneas, dessas que a gente vê muito num certo tipo de música na atualidade. Coisas como dor com amor, assim com mim, coração com paixão e solidão.
Uma vez, seu Zé, o dono da venda do bairro, perguntou-lhe: - Como vai seu pai? Sem pestanejar, respondeu: “- Vai bem, mas de casa nunca sai”. A inversão do sujeito, verbo e predicado fora a gota d’água para que desistisse da conversa com as pessoas. O jeito era evitar o diálogo cara a cara. Só com as letrinhas cursivas é que era boa de prosa e de verso.
Por temer que suas memórias fossem também embaralhar a gramática, decidiu não confiar nelas. Assim surgiram os diários e depois, ao perceber que sua escrita era bem melhor que a fala, guardou para si o som de sua voz. Desde então, passou a se comunicar apenas por bilhetes, cartas, muito antes do advento da internet que vocês usam por aí. Por isso, quando viu aquele cartaz no muro vermelho, pensou ter sido para ela o recado. Baú aberto, viu quando uma gota de suor caiu sobre um de seus cadernos, fechados hermeticamente, tanto quanto sua boca.
Recobrou o ar e sem perceber, num tom tão alto que pôde ser ouvida até por quem passava duas ruas ladeira abaixo, disse: “Tem escritos que não saem da gente por coisa alguma”. E voltou a se calar.
_________ Inspirado na minha capa do Facebook, que coletei no Coletivo Transverso (e de que não sei a autoria exata para citar aqui, infelizmente). Escrito para o Espaço G, da Gazeta do Iguaçu.
Dias desses vi ao acaso (juro!) um clipe do Maroon 5 que me levantou a seguinte questão: há uma fórmula básica para os clipes da banda no qual sempre estaria presente a fórmula Adam-vocalista-sexy-symbol-sem-camisa-pegador-ferido?
Movida pelo espírito da ciência (imprestável), gastei boa parte dessa minha noite verificando alguns clipes da banda. De um lado do monitor, coloquei meu bloco de notas no qual escrevi palavras-chaves sobre minhas impressões. Do outro, rolava os vídeos do Maroon 5 (leia-se, Adam) do outro.
O resultado desta perda de tempo está abaixo. Se quiser perder alguns minutos de sua vida com algo desnecessário, vá adiante. AVISO ÀS FÃS: ESTE É UM TRABALHO [PSEUDO]CIENTÍFICO. Se acharem ruim, problema de vocês. Aviso aos demais: Não tenho a intenção de ser sexista ou nada parecido neste post. Não tenho culpa se o cara é como o lobisomem da saga Crepúsculo e curte andar sem camisa.
This love
Como tudo começou.
Clipe veio, com menos recursos.
Pegação de Adam e modelo logo no começo, mordida no beiço.
A banda ainda aparecia. TE quero, não quero, te quero, não
quero.
Adam mais magro, cueca de fora. Interação com banda e
sakuras no concreto.
Adam beija, olha pra camera, mordeção só de calcinha.
Visual teen, munhequeira amarela descontextualizada. "O o oo
ooooou ooou"
Efeito ultrapassado lisérgico, mais pegação, blusa vermelha.
E aí apareceu areia no concreto. Tenis Adidas sem merchã.
Modelo magra olha, acarecia perna, Adam cai na areia, mas
era uma loira e outra morena? Não entendi.
She Will be Loved
Adam na piscina, lembra da namorada. Ou das namoradas.
Ainda não era Angel, modelo mais baixo orçamento.
Adam tá com uma e quer a mais velha que sensualiza de roupa
estampada com o tio de roupão.
Adam acha a mulher do Roberto Justos Cover e beija a Narcisa
Tamborendeguy jovem. "Wanna make you beautiful."
Ela é mãe da namorada de Adam, acho, mas ela só queria ser
amada.
Banda faz show no barzinho, ele tem a nova, mas quer a mais
veia também. Dança com a jovem, mas sabe que panela velha é que faz comida boa.
Pintura estranha ao fundo e ele olha pra madura jovem
balzaca que lembra do beijo com o namorado da filha. Ele não quer mais passar o
dia todo pensando na mãe da namorada, porque ela também apanha do marido.
Narcysa sai atacada e vai pra fonte. A jovem percebe que a mãe abraça o
namorado. Uma olha pra outra, eram a mesma pessoa. Adam ainda não usa regata.
One More Night
O resultado da pegação, Adam Pai de família, com dona de
casa estilo Angel da Victoria Secret.
Adam Balboa dá uma bitoca na mulher.
Mulher abandona Adam machucado.
Payphone
Assalto, tiroteio, dinheiro na mala. Ah, os caras da banda.
Mulher estilo Angel VS bancária,
Adam cara de nerd pega a pistola e foge com a gostosa, que a
essa altura já tá com a roupa abrindo e os cabelos soltos.
Rola um clima na fuga. Adam fodão foge no carro tipo do Speed
Racer.
Rapper faz intervenção básica.
Perseguição clichê com explosões, levanta e sacode e poeira.
Adam fica machucado e tira e fica de regata. Spoiler, só que
não.
Never Gonna Leave this bed
Adam e namorada Angel da VS tão na cama, no barco, na rua,
na chuva, na fazenda. Ela tá de bode, ele tá de bode. Não, eles tão felizes,
Banda aparece por fração de segundos. Adam volta a pegar a
namorada no caixote de vidro ambulante.
As invejosa "chora". Ele sem camisa, ela de
regata.
Adam hipster, usa wayfarer.
Os dois na cama no BBB. Não, não era o BBB, era na rua
mesmo. Ele de cueca samba-canção, colocou uma blusa. Ops, uma regata.
Tipo Yoko e Lennon do pop. Só que bonitos.
Wake up call
Ele tá de bode, ela mentiu pra ele.
Bonitona, mas de roupa não dá pra saber se Angel.
Não, ela tira a roupa.
A banda.
Adam na cama. Pegação. Mais gostosas.
Palavra love, Close caption.
Outro cara pegou a mulher.
Adam fodão, assassino de bandido traidor.
Pole dance, faz parkour. Carrão, mulher. Gostosas amarradas e com
desejo.
Pedofilia (medo, somos contra até de brincadeira)? Vegas babe? Striper, mais pole dance. Prisão da
banda.
Ele se sente mal. Fez errado, joga corpo.
Explode carro, clichê, mais gostosas. Suruba sugestionada,
Parkour, avião, "Puliça", roda roda, Adam ainda de camisa.
tira a camisa, em chamas.
If I Never
See Your Face Again com a Rihanna
Como tem Rihanna, acho que não vai rolar Angel da VS.
O vídeo tá carregando.
Adam de roupa, na beira da cama. Mãos da banda. Flash da
banda. Foca na Rihanna, foca no Adam.
Rihanna observa. E canta. Todo mundo vestido ainda.
Rihanna arranha o gato. O Adam, claro. A banda até que tá
aparecendo.
Rihanna canta, tá sem graça narrar este. A banda aparece, a
camisa num sai.
Ah, Rihanna na cama, seduz. Mas Adam só quer Angel que tava
no outro clipe.
Adam fodão, não traça Rihanna."Babe babe babe please believe
me.."
Fica nesse vai e vai e vem, que ninguém se dá bem.
Adam pega na nunca de Rihanna. E termina vestido, para
detonar minha teoria da regata. Damn it.
Misery
Adam cai na rua, Angel de calça coladinha arranca ele do
asfalto. Ele pega na bundinha.
Ficam se pegando na perifa. Mordida no lábio. Briga, alisa a
bariga negativa. Apanhando de forma cenográfica, atropelado. Se machuca, mas
não se fere.
Angel com luva quer cortar o... Adam. Brinca com faca nos
dedos, beija, chama a Maria da Penha que o homem tá apanhando, afoga no vaso,
mas não revida na mulher que pesa uns 40 quilos.
Atropelado de novo. Essa muié é o capeta, foge Adam pela
escada de incêndio, mas o mochila de criança tenta a Angel que fica do mal.
Adam só apanha, mas não tira a camisa.
Pior pancadaria cenográfica de todos os tempos. Ah, o cara
da banda. Atropelado também. Adam sangra, como de costume. Acertam outro cara
da banda. Coquetel molotov nos caras da banda. Adam corre e fica de camisa.
Love somebory
Adam pelado, mas tecnologia esconde. Vai passando meleca no
corpo. Tinta deixa ver os peitinhos dele os caras da banda estão vestidos
porque pelado só um, né. Mulher-meleca começa a surgir pra fazer companhia.
braços, mãozinha. boca. Passa a mão na bunda, beija a meleca e sugere peitinho (tirem as crianças da sala).
Os caras tocam (os instrumentos enquanto Adam pega mulher-meleca-da-VS)
Mulher pega peitos de meleca, muita tinta tola e Adam na
pegação. Mulher de biquíni roda e dança. Adam cansou, apaga guria e caras da
banda. Tchau Angel. Boca do Adam some. Fim.
Moves like Jagger
Fiquei com preguiça justo nesta aqui.
Adam sem camisa. Deu pra mim, baixo astral.
Minha conclusão é que a fórmula realmente se repete com frequência. Maroon 5 deveria ser Maroon 1, não?
Esse Adam, né? E eu que achava que trocar de top era só mudar a parte de cima pra ir fazer exercício...
Na noite dessa quarta-feira (22) uma mulher de 34 anos foi estuprada depois ter seu carro parado por uma pane na Marginal Tietê, próxima à
Avenida do Estado. Era 18h30. O criminoso fingiu ser mecânico e ofereceu ajuda
à vítima, uma das 16 milhões de pessoas que vivem na maior cidade do País, São
Paulo.
A moça, psicóloga, dirigia um Fiat Idea, o mesmo modelo
de carro com o qual eu passava pelo mesmo lugar duas vezes por semana. Por três
anos, percorri com esta regularidade os 24,5 km da Marginal Tietê. Na
maioria das viagens eu estava sozinha. Às vezes, eu passava por ali tarde da
noite, mas foi à luz do dia que eu fui ameaçada neste mesmo caminho.
Eu estava em direção da Cidade Universitária, dirigindo com vidros
fechados, de óculos escuros de armação azul e lentes grandes, blusa fechada, saia
comprida. Todos os veículos das faixas seguiam velocidade regular. Uns 50 km/h,
uma boa fluidez, se você considerar que se tratava de São Paulo num dia qualquer de
semana.
O tráfego reduziu um pouco e pude ver o motorista da frente
acenando pra mim. Achei que era problema no carro. Verifiquei o painel, portas. Nada. A fila foi
freando até manter uns 20 km/h. Pude ver melhor o moço do veículo na frente, um
carro esportivo, novo, preto. Um Golf ou um Tipo, talvez. Nunca entendi de
carro. Fiz um movimento com os braços, com as palmas das mãos para cima. Perguntei
séria: “O que?”. O cara colocou a mão esquerda pra fora do vidro. E começou a
fazer sinais com os dedos. Um V? Um três? Hum, um dois? Cinco?
Intrigada, olhei no retrovisor dele e vi que ele balançava a
mão com polegar e mindinho abertos, os outros três dedos fechados. Deduzi que
era um sinal de telefone. O cara parecia dizer: liga pra mim!
Consegui uma brecha, mudei de faixa, acelerei. Ele veio
atrás. Da segunda para a terceira faixa, da terceira para a quarta, ficamos
nessa dança. O carro me perseguia e foi aí que fiquei com medo. Ele conseguiu
emparelhar do meu lado e gritava pra mim. Eu respondi de cara feia: “sou
casada!”, mas mantive os vidros fechados. Eu já era divorciada, mas não pensei em nada
diferente. Ele fez um sinal com as mãos e meu conhecimento empírico de leitura
labial leu o que ele me disse: “Tenho pau grande. Você gosta?”. Não tenho
dúvidas de que esta foi a frase dele.
Acelerei, mudei de faixa de novo. Consegui pegar a pista que
eu precisava, a da direita, e subi o pontilhão de acesso à Marginal Pinheiros.
Ele sumiu e senti um alívio ao sentir o cheiro fétido do Rio Pinheiros e da
empresa de remédios logo após o fim da ponte. Tive medo se continuar sendo
perseguida, de ser pega, de ser arremessada na água dos rios. Tudo pareceu muito
rápido.
Tive sorte porque meu Fiat Idea não parou como a da
psicóloga. Cheguei na USP, falei com uma amiga sobre o
incidente, chocada. Meu primeiro questionamento foi: o que eu fiz para provocar
isso? Sim, fui seguida na Marginal por um tarado e me senti culpada por alguns
momentos. O senso comum apregoa que a culpa é da Eva, que comeu a maçã, certo? Teria
eu dado algum indício de sexo livre na Marginal Tietê? Não. Eu não dei,
respondi ao meu próprio preconceito.
Okay, você pode achar que isso não é violência, porque não
fui tocada pelo estuprador em potencial. Pode parecer que “virou moda” falar de
estupro. Eu mesma compartilhei dois textos nesta semana no Facebook sobre as
agruras de ser do gênero feminino. Mas o que você não saibe, talvez, é que o
que deve sair de moda é mesmo essa violência invisível e falar sobre essas
minhas experiências, ainda que negativas, fazem com que eu me sinta mais forte.
Que eu reforce para mim que, se pudesse voltar no tempo, teria denunciado todos
os agressores que encontrei ao longo da minha vida.
Aos seis anos de idade, um coleguinha meu da escola “primo
da prima do meu primo” e seu vizinho tentaram me estuprar na garagem da casa
dele, onde eu sempre ia para brincar. O meu amigo tinha sete anos. Seu
vizinho, uns 10, 11. Eles me levaram à garagem e disseram: “a gente quer comer
você”. Eu pensei que era algo relacionado ao canibalismo. Fiquei assustada e
eles me explicaram: “não, tire a sua calcinha, é assim, assado...”. Eu fugi e
fiquei embaixo da cama da irmãzinha do meu colega até meu pai me buscar.
Fiquei mais de 10 anos sem falar com este menino, que
estudou na minha sala por uns três anos ainda. Nós nos encontrávamos em festas
de família, vez ou outra. Já adultos, ele me perguntou: "por que você não gosta
de mim, Stela?". Ele não se recordava. Expliquei. Ele ficou envergonhado, jurou
não se lembrar. Eu o perdoei. Éramos crianças, certo? Voltamos a ser amigos.
Minha raiva passou, mas naquele dia, há tantos anos, um pouco da minha inocência já
fora perdida. Talvez eu tivesse que fugir outras vezes. Como, de fato, ocorreu.
A primeira vez que vi um homo erectus foi numa tentativa de
estupro. Eu tinha 14 anos, trabalhava numa pequena loja de camisetas. Este
cara, que passava de bicicleta todos os dias na frente do estabelecimento e me
falava baixarias, um dia entrou no lugar e pediu para experimentar uma roupa.
Eu peguei a camiseta e indiquei o banheiro (não havia vestiário). Ele entrou e
saiu sem calça, sem cueca. Com um pênis armado pro meu lado. Eu nunca tinha
visto um homem sem calças, muito menos naquele estado. Eu corri e peguei o
ferro de baixar a porta da loja. Peguei a barra, gritei qualquer coisa e saí, chorando.
Pedi ajuda à vizinha, larguei a loja sozinha. E chorei por horas.
O criminoso –
ironicamente cara e vestes de Tiririca, pelo que me lembre -, nunca foi denunciado por mim.
Minha mãe reduziu a importância do incidente. Mandou-me trabalhar de volta. O
cara não voltou e soube depois, pela minha prima, que ele era carcereiro na
Cadeia Pública. Como ela descobriu? Comentando com um e outro sobre o tarado. Antes
de mim, era pra ela, que me antecedeu no mesmo trabalho, a quem ele dirigia suas
baixarias. Ela também tinha 14 anos de idade.
Em uma dessas incursões de violência, por volta dos 19 anos,
eu não consegui fugir. Fui pega não por um desconhecido, mas por alguém com
quem eu me esbarrava vez ou outra. Novamente, eu chorei. E “esqueci”.
Nunca havia elencado estas experiências e trazê-las à tona,
no papel, é um alívio e uma tristeza. Porque há outras coisas, como ouvir de
um chefe que “não contratará mais mulher, porque mulher fica muito doente”. Ou
aquela vez que eu menino de rua apertou meus seios no meio da rua, quando eles
ainda estavam mal formados. Ou quando um você tem que insistir para um homem usar
preservativo, embora alguns deles argumentem que “é como chupar bala com papel”
– como se para nós mulheres tanto fizesse a sensação "bala encapada" ou "sem embrulho", e como
se fosse um fado nosso esta reivindicação. Ou naquele dia que você quis terminar um
relacionamento, por falta de amor ou outro motivo, e levou puxões de cabelo, mordida na mão, entre outras
agressões físicas e verbais como "vagabunda, desgraçada".
É triste que este desejo de me expor tenha ocorrido
justamente agora, quando esta moça foi estuprada na Marginal Tietê. Mas se ela
não se calou, por que devemos nos calar, mesmo a posteriori? E se o silêncio é
a conivência, gritemos para que essas histórias sejam denunciadas, punidas,
compartilhadas. Eu prometo nunca mais me calar. O estupro nosso de cada dia não merece mais fazer parte de nosso cotidiano.
Passado o susto inicial da descoberta da infestação, decidiu
não mais pensar nas aranhas. Havia desistido de providenciar o detefon
mata-tudo, não porque o slogan era ruim (tinha baforado o inseticida tantas
vezes e continuava viva que desconfiava da eficiência do seu enunciado). Um
pesadelo com sapos e braços mutilados, costurados por teias por humanizadas e
bondosos aracnídeos fizeram ela se afeiçoar aos artrópodes de seu quarto. E se
estivessem lá para salvá-la?
As aranhas a tinham levado pelo jardim secreto do oco do seu
peito, e isso bastaria para uma redenção. Sem elas jamais teria percebido esse rombo e
já se afeiçoara ao barulho transpondo esse suposto vácuo. “VVvvviiiiiiiim”, era
o som desse zunido constante que ricocheteava do seu cérebro para o ouvido e do
ouvido para fora. Era a trilha sonora de seu pensamento e pensou: este é o
barulho do nada, de quem não tem algo algum obstruindo sua caixa torácica do
sentimento. “Vvvvviiiim”. Começou a gostar deste conjunto
peito-vazio-mente-liberta-oco-onomatopéico, e a dele se afeiçoava aos poucos. Não
queria mais que aranhas tapassem o vazio com sua teia. Viveriam cada qual em
paz, em seu canto. Seu oco não era mais vazio. Seu corpo era agora um
instrumento musical.
Havia muitas pequenas aranhas em seu quarto e hoje ela
prestava mais atenção nelas a qualquer outro dia. Começaram como uma presença
quase invisível, notada apenas pela poeira acumulada sobre as teias
translúcidas. Aos poucos, foram ficando mais evidentes, como se não precisassem
se esconder mais. As aranhas tinham perdido a timidez e agora suas pernas finas
e corpos arredondados e pequenos faziam parte do seu cenário cotidiano.
Era nelas que pensava antes de dormir, e isso parecia
preencher o oco descoberto recentemente no seu peito. Foi olhando para as
aranhas, tão redondinhas, e nos filhotes que deviam carregar – porque se
alastravam feito mamíferos lagomorfos pelo teto da casa –
que ela teve sua epifania. “As aranhas parecem estar sempre cheias em seu
interior. Eu estou vazia como o vento”.
A constatação de viver com um oco dentro de si a impedia de
escrever qualquer crônica mais bem elaborada. Não podia falar de amor, com esse
recôncavo dentro de si, e nem sobre a morte de Margareth Thatcher – de quem por
razões estranhas temia quando criança, por causa do apedido “Dama de Ferro”,
possivelmente.
Não poderia nem falar sobre artrópodes com propriedade, pois
não era bióloga tampouco aracnológa. O que sabia sobre as aranhas tinha
aprendido com Dona Lina, sua professora de Ciências, ou nas pesquisas da
Wikipedia.
Constatou ser bobagem escrever sobre aranhas, pelo
desconhecimento das espécies, mas o tema lhe parecia mais interessante a falar
do seu peito oco. Imaginou porque tinha ficado assim, talvez seu interior não
fosse vazio, mas cheio de teias empoeiradas de quem fez abrigo por lá.
Possivelmente lhe faltava poeira para ver como estava cheio de vida, como
ocorreu com as aranhas de seu quarto. Na velhice haveria de descobrir. Até lá,
deixaria as janelas do peito abertas para o vento.
De muitos fenômenos recentes da internet, um despertou minha curiosidade por reunir tantos significados. NoPassinho do Volante criado pelos jovens da comunidade carente em Niterói (RJ), despi meus preconceitos e admito publicamente: gosto realmente da iniciativa de MC Federado e seus Lelekes.
Com gestualidade simples e o refrão grudento “ah, lelek, lek lek lek”, eles conquistaram mais de 30 milhões de visualizações no Youtube do vídeo gravado de forma caseira na comunidade Coronel Leôncio, no bairro da Engenhoca, onde vivem. Para produzi-lo, eles convidaram os vizinhos e investiram R$ 70 numa churrascada coletiva. Quem foi à festa, dançou para a câmera de um tablet de um amigo, em troca da confraternização. Crianças, adultos, gordos ou magros estão lá, mostrando ao mundo o tal Passinho do Volante, em meio à vielas e até sobre uma Kombi abandonada.
O sucesso mudou a vida dos quatro jovens – de 18 e 19 anos – que passaram a excursionar pelo Brasil com o hit único. Pela internet, chegaram aos ouvidos e rádios de todas os estratos sociais. Neymar e Anderson Silva, personalidades que como eles emergiram da periferia, são fãs dos “lelekes”, um trocadilho para “moleque”, equivalente ao “piá” paranaense.
E onde está o diferencial do funk do lek, lek? Arrisco-me dizer que o hit pegajoso é um dos marcos que provam como o acesso à informação pode contribuir para a sociedade. Sem descambar nas letras de alusão ao sexo, o funk inocente deu voz e imagem aos invisíveis, que ganham contornos também graças à ascensão social recente de nosso país, que lhes garantiu acesso à web e aos bens de consumo.
Pela mesma rede que lhes deu visibilidade, é possível confirmar a importância daqueles jovens para a imagem do bairro. Uma simples busca pelo Google sobre Coronel Leôncio revela como o fenômeno acaba sendo um contrapeso para o noticiário da violência local. Dos cinco resultados principais, três relatavam execuções a tiros, enquanto dois apresentavam matérias sobre o sucesso de MC Federado e seus Lelekes. Nas entrevistas, os jovens dizem que pretendem continuar na Coronel Leôncio, mesmo que venham a ganhar o suficiente para deixá-la, e investir em moradias melhores para suas famílias. Só depois é que vem o volante, sonho de consumo da maioria dos jovens, invisíveis ou não.
O anúncio do patrocínio de
uma grande cervejaria e a consequente intervenção da empresa no
Carnaval de São Luiz do Paraitinga, a 150 Km de São Paulo, atingiu os
amantes da cultura local com uma ferocidade comparável à enchente que
assolou o município valeparaibano em 2010. Fomos pegos pela notícia da
implantação de um camarote da cervejaria e, mais recentemente, pelo
anúncio da programação musical com nomes como “Bonde do Tigrão”.
Como as águas do Rio Paraitinga que subiram
lentamente naquela virada do ano para 2010, fomos sendo inundados por
uma série de notícias sobre os rumos da festa para este ano. A diferença
é que, desta vez, não houve equipes de rafting para nos salvar do
impacto causado por essa inundação de incoerências administrativas.
Estamos sendo tragados pelas águas barrentas da má administração, da ingerência política e econômica sobre a cultura de um povo.
Pelo
coletivo “nós” refiro-me aos milhares de admiradores da cultura
luizense que, como eu, encontraram no Carnaval de São Luiz do Paraitinga
um refúgio para as mazelas do mundo, um tempo de ser feliz
independentemente de patrocínio, de abadás ou de bundas de fora.
Em sua defesa, a prefeitura tem alegado que os
recursos na ordem de R$ 3 milhões ajudariam na revitalização da cidade,
mas ignoram o impacto que a medida mercadológica pode causar à festa. O
lodo das inúmeras inundações parece ter cegado os governantes locais.
Sim, a Prefeitura de São Luiz do Paraitinga está cega.
No topo de sua soberba, o poder público – em
consonância com os interesses do mercado – ignora “os quês e quais e
poréns” daquilo que justamente transforma o Carnaval de São Luiz do
Paraitinga em uma manifestação única, calcada nas tradições da cultura
caipira e da musicalidade que dela adveio. Esta mesma identidade da
festa que a levou como destaque às páginas do The New York Times
certamente atraiu a patrocinadora. Esta é a lógica do mercado. Mas R$ 3
milhões justificam colocar por água abaixo toda construção dessa
tradição reinventado do Carnaval luizense?
Será que a prefeitura e a Ambev ignoram o histórico
da festa, que começou no formato adotado até 2012, com a exclusividade
do estilo das marchinhas, como uma resposta à uma reportagem da Rede
Globo, com a qual os moradores e artistas se sentiram ofendidos em
1980?
Até que ponto o poder público pode interferir nas manifestações culturais emergidas da população?
Será
que sequer avaliaram os motivos pelos quais a festa atrai milhares de
foliões ano a ano?
Desconhecem que a apropriação simbólica daquilo que é
inerente ao povo da cidade, como seu sotaque arrastado e sonoro,
transposto às marchinhas, é um dos principais atrativos ao folião,
interessado nesta aura lúdica e de túnel do tempo locais?
Será que não avaliam que estão desconstruindo o ethos cultural
da cidade, cuja religiosidade e as festas pagãs se interlaçam, e formam
um dos pilares da identidade de São Luiz, que nada têm em comum com o
repertório musical proposto pela Ambev ou nas letras do Bonde do Tigrão?
O que atrai turistas a São Luiz, senão seus aspectos particulares como a capital das
marchinhas e cidade do Saci, o autêntico "raloim" brasileiro? Não é
também um erro estratégico desmontar essa identidade que é justamente o
que sustenta o turismo local? É se for para a cultura luizense se
transmutar um dia, que seja da mesma forma que ela surgiu: das massas, e
não do poder hegemônico de uma cervejaria ou do Estado.
Não se trata de puritanismo, como a oposição aos
fatos acima podem imaginar. Mas de preservar aquilo que torna São Luiz
especial – sua gente, suas alegrias e suas tradições.
Se
em 1920 se temia que o carnaval levasse ao nascimento de rabo e chifre,
só posso preconizar que o padre Monsenhor Ignácio Gioia estava certo.
Só mesmo a arte do coisa ruim pode justificar a mistura de estilos no
Carnaval luizense.
Stela Guimarães é
jornalista, nascida no Vale do Paraíba, mestre em Comunicação pela
Escola Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) com a
dissertação “Do rabo e chifre às marchinhas: como uma reportagem da Rede
Globo interferiu na criação do Carnaval de São Luiz do Paraitinga
(SP)”, defendida e publicada em 2011.
Ela se sentia feliz porque pensava ser sorte conhecer, no
mesmo dia, uma banda nova, da qual tinha ficado imediatamente fã, e um filme
bacana, apesar de tê-la feito chorar. Andava emotiva e insistia em dizer que
isso era raro, embora quem a conheça saiba o quanto é fácil emocioná-la por
razões diversas, alegria ou tristeza, música ou cinema.
Desde pequenininha, ela chorava muito. Um ralado na perna da
irmã mais velha era o suficiente para fazê-la derramar baldes de lágrimas. A
situação era irritante para quem via de fora – especialmente para a primogênita
de seus pais, durona na queda e de pouco chororô. “Menina, pára de chorar que
eu estou bem”, dizia sua irmã mais velha sem a agressividade que as palavras
escritas aqui podem esconder.
Daí até chegar a sua idade atual ela chorou e chorou tantas
vezes, por tombos alheios, finais de novela, meio de filmes, notas na escola e
até na última Copa do Mundo. De tanto chorar, ela deveria admitir que seu lado
direito do cérebro é muito mais faceiro ao vizinho de massa cinzenta. Mas isso,
para ela, seria como encarar uma derrota. Sua personalidade colorida, porém
emotiva, não poderia vencer este duelo.
Agora, sentada sozinha em sua cama, ela pensava se a
habilidade de traçar estratégias havia mesmo sido derrotada pelo apego
emocional. Estava feliz porque a banda era realmente boa e o filme recém-visto –
e comprado no camelô - tinham lhe proporcionado. E há dois dias ela comprara um livro com o qual estava se divertindo muito. O segundo best seller de David Nicholls, o “novo” Nick Hornby.
O trabalho ia bem, obrigada, e o saldo na conta não estava
muito a contento, mas o abono do meio do ano ia ser bom. Então não havia muito
com que se preocupar. Estava saudável, apesar de alguns espirros e do cansaço
da viagem do fim de semana. Havia feito hidratação no cabelo e suas unhas do
pés estavam feitas. Em tese, tudo certo.
Mas aquele anúncio feito por ela no jornal, da vitrolinha
que ele precisava vender antes de partir, parecia rodar em delay eterno. Um
tormento besta, para que ela se lembrasse dele e daqueles dias bobos,
despretensiosos e reconhecidos, a posteriori, como felizes. De repente, toda a
cidade havia decidido comprar o item de coleção, embora ele tenha sido vendido
há tempos. Trim, trim. Se o telefone
tocava, ela já sabia – lá estaria um comprador atrasado.
Também subitamente pareceu-lhe muito maldoso os itens
deixados por ele, para ela. Um prato, uma frigideira queimada - para lhe lembrar do Sérgio Reis entoando a
clássica ode às coroas – e até uma tampa de panela velha. “Presentes” bem
intencionados que acabaram por lhe dar tristeza, não intencionalmente, ela
sabia.
Ela não estava apaixonada, insistia em pensar e dizer (e
estava convicta disso), mas sentia falta daquele “relacionamento com prazo de
validade”. Ela gostava de se lembrar dele penteando os cabelos todos pra trás,
como um velho pescador norte-americano, e ria ao pensar como detestava a
coloração das lentes de seus óculos.
Por algumas vezes, sentiu melancolia ao olhar para um
cantinho onde eles gostavam de ficar. Sentia falta de dormir com ele e de
outras coisas mais advindas de tal proximidade. Em outras ocasiões, refletiu se
deveria escrever sobre ele – porque essa coisa de transformar pessoas reais em
pseudoficção só tinha lhe dado má sorte até agora. “Os homens ficam se sentindo
os maiorais”, lembrou, mas sabia que essa melancolia e saudades pareciam só
servir para que seu lado direito do cérebro transformasse tudo em palavras
organizadas pelo seu lado esquerdo e virasse um conto bobo de quem sente falta
de outrem.
Ele, que era notadamente mais pragmático, não seria convocado
a conferir o texto no qual ela admitia como sua ausência era sentida. Ela preferia
que eles ficassem leve, como eram, e tal leitura poderia causar nele uma má
interpretação e afastá-lo ainda mais. Ela sabia que pouco a pouco seus
contornos femininos iam sendo esquecidos pelo cotidiano, pelos caminhos que a
vida ia seguir, e isso já estava acontecendo nele, ela sabia. Por sua vez, ele estava imortalizado naquele escrito no qual
ela admitia dele gostar, assim como havia gostado tanto dessa banda nova e
desse filme de hoje.
Foi musical o primeiro pesadelo do qual tenho lembrança (antes
que eu começasse a povoar meu R.E.M. com tsunamis). Eu devia ter menos de seis
anos de idade e, uma noite, sonhei com um funeral que ocorria em uma estrada de
terra, com poucas pessoas seguindo o cortejo. Eu via aquilo de cima de um morro
e chorava compulsivamente pela perda daquele que seria sepultado logo mais.
Dentro do caixão, no meu pesadelo, estava Milton Nascimento. Como pano de
fundo, rolava no playback do meu subconsciente “Bailes da Vida”. “Pé na estrada
de terra na boleia de caminhão, era assim”.
Talvez o pesadelo tenha sido influenciado pela imagem do
velório de Elis Regina, a primeira artista que “vi” morrer. À época, eu tinha
cinco anos de idade. Eu nem tinha me dado conta, mas a música já tinha esta dimensão
de vida-morte para mim.
Um paradoxo ter sua primeira lembrança de morte justamente
com alguém de sobrenome Nascimento. Coincidentemente, foi o mesmo Milton o responsável
por fazer com que eu derrubasse lágrimas de emoção durante um show ao vivo. Foi
em um show do mineiro, para celebrar o aniversário de São José dos Campos, que
eu chorei pela primeira vez por não caber dentro de mim a alegria de participar
de um belo espetáculo musical. E quando na pós-adolescência perdi um amigo
vítima de leucemia, chorei novamente ao som de “Encontros e despedidas” com
aquela esperança de que um dia o reencontrasse em alguma estação.
Não tinha me dado conta do quanto Milton Nascimento fez
parte da minha história até zapear a tv neste fim de semana. Ao vê-lo lá, bem
vivo após tantos anos do meu sonho de infância, senti como aquela alegria de
reencontrar velhos amigos. “A plataforma desta estação é a vida”, pensei. E o
velho Milton me fez sorrir novamente.
Regra de três (sem colar)
Cantar (sem desafinar)
Correr (sem falta de ar)
Tocar piano ou guitarra
Desenhar, grafitar
Sentar como princesa
Dançar tango e mambo
Nadar borboleta
Jogar vôlei
Trocar pneu
Virar estrela.