Pintadas a mão por Stela, pessoa estranha porém bem-humorada e insistente na tentativa de imprimir cores em seu mundinho cotidiano mas raramente monocromático.
Em tempos
de rolezinho marcados pela exaltação aos bens de consumo da elite, compositores
de canções que vão na contramão da música da ostentação - popularizada nos
últimos anos pela indústria do entretenimento - levaram para casa um total de
quatro Grammys, o maior prêmio da música norte-americana.
Além das
estatuetas recém-adquiridas, o duo de rap Macklemore & Ryan Lewis e a
neozelandesa Lorde têm em comum canções que exaltam a simplicidade e a
antiostentação.
Na letra,
Thrift Shop faz pouco caso dos usuários de marcas famosas e do gasto despendido
com roupas. "Cinquenta dólares por uma camiseta? / Chamo isso de ser
enganado e abusado, droga/ Chamo isso de ser enganado por um negócio/ Essa
camiseta é muito cara e ter uma igual a de outras seis outras pessoas nessa
boate não dá / Olhe só, venha dar uma olhada através do meu telescópio. Está
tentando pegar garotas por causa de uma marca?/ Cara, então você não pegará",
canta a dupla.
Na
canção, a jovem de 17 anos desconstrói o mundo de luxo popularizado nos últimos
anos no entretenimento pop, como um desabafo de quem está cansada de ter como
busca os bens de consumo.
"Mas
todo mundo só fala de champanhe, carrões/ Diamantes em seus relógios/ Jatinhos,
ilhas, tigres em coleiras de ouro/ Nós não ligamos /Não estamos envolvidos no
seu caso amoroso", diz a letra da canção premiada, que segue com uma
afirmação: "E nunca seremos realezas/ Isso não corre no nosso sangue. Esse
tipo de luxo não é pra gente/ Nós desejamos outro tipo de agitação".
A
popularidade de ambas canções apontaria um novo caminho para a música, pela
busca do mundo mais simples, ou talvez a esta bandeira anticonsumista seja
apenas mais uma apropriação da indústria do reconhecimento por esse mercado?
Música antiostentatção, ouro no peito. A nova cara do mainstream.
Lembremos
que esta indústria é a mesma que premia álbuns como “Watch the Throne”, de JayZ e Kanye West - saturada por referências à riqueza em letras que exaltam marcas
como a francesa Hermés (no “Rap de luxo") e Gucci. Recordemos ainda
que a cantora Lorde - nascida Ella Maria Lani Yelich-O'Connor - assumiu o nome
artístico supostamente por admirar a realeza que ela critica em Royals. E que as correntes grossas de ouro também estejam no peito de Macklemore.
Estratégia
de marketing ou saturação da sociedade de consumo, as músicas premiadas pelo
Grammy apontam que, talvez, os rolezinhos e os reis da balada não sejam mais
populares no mainstream em um futuro próximo. Como cantou John Lennon em
Imagine, “você pode dizer que eu sou um sonhador. Mas eu não sou o único”. Ao
menos neste ano, o júri do Grammy parece concordar.
Li vários artigos, favoráveis e contrários aos “rolezinhos” nos
shoppings, assunto que como tantos outros nasce meio desgastado nas
redes sociais. Nesta leva, há textos muito contundentes como o da antropóloga Rosana Pinheiro Machado,
que não caiu de paraquedas no assunto porque é uma estudiosa do tema (funk,
periferia) há muito tempo .
Aliás, essa é uma das mazelas da democracia nas redes
sociais: a análise pela análise, a crítica superficial. De repente, todo mundo
entende de tudo e tem opinião sobre os assuntos. E, nessa leva, muitas vezes os
especialistas são rechaçados e classificados como marxistas ou esquerdistas. Foio que ocorreu com o texto da antropóloga, criticado pela Veja.*
Não sou especialista em consumo – embora tenha sido
orientada no Mestrado por um estudioso do tema, Waldenyr Caldas, professor da
ECA-USP e autor de livros como Temas da Cultura de Massa, Música, Futebol e
Consumo”. Talvez gente como esses acadêmicos possam explicar melhor este fato
social – que não é inédito e não nasceu politizado como crítica social, mas tem
muito a dizer sobre a nossa sociedade do consumo.
Apropriar-se dos ícones do consumo não é coisa nova.
Mas, de fato, a ascensão da classe C, o aumento do poder aquisitivo do brasileiro mais pobre nos últimos anos e as
redes sociais tornaram este fenômeno mais visível. Ostentar bens de consumo sempre foi, na sociedade capitalista, uma
forma de manter o status quo e de pertencer a um determinado grupo. E os adolescentes
nos shoppings de São Paulo não são diferentes dos jovens da escola do meu filho,
que levam seus smartphones de última geração para a sala de aula. Tampouco é novidade a crítica a apropriação dos bens das classes "superiores" pelas "inferiores".
Lembra-se da gritaria dos donos de IPhone quando o Instagram
foi liberado para outras plataformas? Temia-se, em alguns estratos (os donos de
IPhone), uma Orkutização – neologismo este que também surgiu associado à invasão dos
jovens pobres ao Orkut. Enquanto deveríamos comemorar a inclusão digital, não?
Eu admito: é difícil manter-se distante do preconceito. Em várias
ocasiões me deparei com minhas próprias atitudes preconceituosas. Eu já atravessei a rua ao ver
um negro de boné vindo na minha direção à noite. Família, sociedade e a mída me ensinaram isso e a menter-me longe "do perigo". Porque é assim que o jovem negro é visto ainda: como uma ameça, um possível usurpador do seu direito de andar livremente entre os causasianos ou de lhe tirar a vida. É verdade que os presídios brasileiros têm mais negros a brancos. Embora a população negra no Brasil seja da ordem de quase 50%¨. Há uma razão histórica e social para isso, inclusive, que passa pela exclusão da comunidade negra.
Sim, eu já fui preconceituosa. Já chamei de piriguete
mulher de roupa curta. Eu já usei o termo "favelada" em tom
pejorativo a me referir a terceiros sobre uma garota negra e fã de funk, moradora da periferia de São Paulo, apenas
por ciúmes do meu namorado. Envergonho-me dessas atitudes que muitos ainda trazem no cotidiano, embora estampem outra retórica.
Sei também que essas coisas são difíceis de serem rompidas e por isso mesmo devemos perseguir por esse rompimento. Meu
avô, filho de mulata, rechaçava negros e fazia piada sobre eles. Ele era uma
boa pessoa, mas reproduzia sem dó o discurso que a sociedade apregoava e do qual ele mesmo era vítima.
Assim, cresci achando que meu “cabelo
era ruim” por ser cacheado (eu ainda o mantenho liso). Cresci achando que usuário de droga
("maconheiros da esquina do bairro", como dizia minha avó) deveriam ser presos e pertenciam a uma casta
inferior.
Eu, que nasci pobre, desmerecia a pobreza e suas manifestações
culturais e a violência que advém de toda a estrutura. E sei, por isso mesmo, que cabe a nós um esforço para romper esses padrões
aprendidos na criação familiar.
Nunca fui expulsa de uma loja, mas muitas vezes – mesmo – fui
maltratada por vendedores ou vendedoras. Não sou estereótipo de moça rica. Não
tenho traços finos, não ostento marcas em bolsas (mas uso Melissa no pé, artigo
que, segundo a Folha de São Paulo, é usado pelas “minas” dos rolezinhos). E, admtido, já comprei sem perguntar o preço (e sem precisar de fato do que comprava) apenas porque fiquei sem graça pela possibilidade de pensarem que talvez eu não
pudesse adquirir o produto.
Quando adolescente gostava de ir ao shopping, mas tinha
vergonha de parar defronte algumas lojas. Não era me dado o direito de ver
algumas vitrines. Olhares desconfiados e perguntas feitas por vendedores até no lado de fora da loja me
afugentavam deste universo. Isso porque nos meus rolês dos anos de 1990 eu usava o meu tênis New
Balance. E lojas que me expulsavam eram de marcas das quais se adquiria um produto mesmo com um salário
razoável (não era o Iguatemi da JK). Fui vítima desse preconceito de classe e por isso não consigo deixar de ver a reação como tal.
Hoje, com uma condição econômica bem melhor, sinto-me à
vontade em transitar em qualquer shopping – embora não tenha (vontade e)
dinheiro para adquirir certos bens de consumo. Conta ao meu favor o fato de ser branca (amarelada). Sim, porque estamos diante de um caso de preconceito racial também.
O meu preconceito já teve cor. E ela era negra. Disso me recordo com pesar, assim como não me esqueço daqueles olhares dirigidos a mim quando eu
estava em frente às vitrines no passado. Talvez tenham sido esses olhares – mais do que qualquer
literatura sobre o tema – os verdadeiros responsáveis pela minha empatia aos
rolezeiros de hoje.
________
* [Coisas das ciências humanas. Se estivéssemos diante da queda
de um prédio, poucos discordariam dos laudos dos engenheiros sobre o tema. Ou,
ao menos, dariam mais credibilidade ao assunto.]
Se você quer estabilidade, esqueça o amor.
Amor não é emprego garantido por concurso público, não deposita seu FGTS
nem lhe confere as garantias da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).
Amor não garante seguro desemprego, não te entrega um cartão cidadão
da Caixa Econômica. Amor não tem PIS nem Pasep, mas exige esforço ora
de estivador, ora de jardineiro.
Na eventual rescisão do contrato, o dispensado sai "com uma mão na frente e a outra atrás", como diria a minha avó.
O
amor burla as leis e vem sem nenhum plano de saúde acoplado -- com ele,
as dores de peito e angústia são como fila de hospital público
em cidade grande.
Por isso, o amor é PEJOTA (leia-se, pêjóta) -- aquela modalidade de contratação cada
vez mais comum nas empresas jornalísticas, entre outras instituições interessadas em
drilblar o direito dos trabalhadores (ou dos amantes).
Nesta
modalidade, pesa ainda a falta de vale-alimentação e, no meu
caso, a carência de um vale-transporte aéreo (coisa comum quando
o amor está distante por imperativos geográficos).
Aos pejoteiros (nome dado àqueles que trabalham como pessoa
jurídica) os direitos previdenciários são deixados de lado, embora a
vontade de ficar juntos até a velhice seja sempre a premissa do início do amor.
Não há retorno de INSS para coração partido. Em caso de rompimento, ou de velhice solitária, fica-se no desalento
pior do que aqueles enfrentados por quem dorme na fila da previdência para marcar uma
perícia médica daquela dor no peito cuja cura é o afago dele(a).
Amor é instabilidade mesmo quando tranquilo. É tensão mesmo em paz. Não há "décimo terceiro" porque amor, quando está
contratado, é um só. O único concurso público que você pode fazer neste campo é o da solidão. Mas não há alegria maior que a de
"pejotar".
_________
Texto escrito a partir da
conversa com os pejoteiros Marcelo Arend e Maria Carolina Florêncio;
Daniela Valiente e Christian Rizzy; e dedicado ainda às pejotistas Ana,
Flávia e Fernanda Spala.
Dizem, e confirmo por experiência própria, que o passar dos anos nos amolece por fora e nos endurece por dentro. Enquanto a pele vai perdendo a firmeza de outrora, uma couraça invisível vai nos fazendo perder a ternura e, muitas vezes a fé na humanidade. Acredito que este é o causador de velhinhos azedos, recrudescidos pelas horas do dia.
Ao crescermos, desconfiamos se a frase "Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás" , atribuída a Che Guevara, foi de fato proferida pelo suposto autor, uma vez que o comandante tinha outras facetas além daquela pintada em Diários de Motocicleta. Nas primeiras desilusões amorosas, perdemos o encanto sobre o amor (até que nos apaixonemos de novo).
Foto de Guilheme Briggs.
Ao crescer, descobri que o Trem da Alegria – grupo de meus principais ídolos da primeira idade, dos anos de 1980 – era composto por gente de verdade, como eu e você (acredito que a geração seguinte sofra o mesmo com Miley Cyrus, a ex-Hannah Montana). Que Papai Noel não me trazia presentes porque o Sarney afundava a economia brasileira. Mais tarde, ao perceber que a profissão dos sonhos não mudaria o mundo, como pensávamos antes do ingresso na faculdade.
A vida nos empedra porque acreditamos demais nos ganhos, evitamos o fracasso e sofremos pequenas ou grandes injustiças. Petrifica nossa alma quando apanhamos mesmo sendo merecedores de flores. Ou quando uma suposta autoridade nos enfia o dedo na cara, substituindo o diálogo pela força bruta – seja a das palavras ou a da força física.
Diante de tanto endurecimento, como não perder a ternura? O antídoto está na resistência de colocar flores no lugar de pedras no meio do caminho. Que neste fim de ano todos percamos as cascas e tiremos de dentro delas aquele pessoa que já nasceu aprendendo a sonhar. Não importa o quanto estejamos moles por fora ou petrificados por dentro.
Um dia em Mercúrio tem 2.160 horas de duração. Por ser o
planeta mais próximo do Sol, por lá não há dia acinzentado ou tempo nublado. É sempre
quente, com temperatura média de 169°C, embora estudos apontem evidências de
gelo em suas crateras.
Mercúrio não é Vênus, planeta do amor, mas rege o signo de
Gêmeos que aparece no centro do meu mapa astral com o ícone S2 (nunca havia
entendido o porquê). Okay, admito que essa última informação é a única
inverdade nesse texto, mas acredito que você já tenha percebido minha predileção
por dar um certo lirismo – ou diversão – à realidade. Tenho feito isso com mais
frequência nas suas últimas 2.160 horas, o tempo de um dia em Mercúrio, o
equivalente a 90 dias na Terra. Se fizermos uma contagem regressiva, você sabe quando começa esse dia.
Não sou muito afeita a datas e sou mais astronomia à
astrologia. Seja pela ciência ou esoterismo, essa temporada de três meses que
passa lentamente fora do nosso planeta também tem me colocado no espaço, feito-me ver
estrelas e a fazer declarações piegas, mas sinceras.
Ser velho é cansativo, dizem-me por aí os mais idosos. É o sono inconveniente da tarde e escasso nas últimas horas da madrugada, as dores crônicas e o corpo que não acompanha a sabedoria adquirida com o passar do ano, e os amigos vão se tornando cada vez mais raros.
Com o tempo, a gente se torna menos tolerante para certas coisas – isso eu posso atestar já do alto dos meus 36 anos – e mais flexíveis para outras. Ser velho é ser melhor por dentro, acredito eu, mesmo com as manias recrudescidas e a pele marcada.
Mas há um lado encantador da velhice que é a emancipação dada por ela. Ao envelhecer, as preocupações com os padrões impostos pelo bom costume se tornam mais tênues. Não é preciso vestir terno para o trabalho, nem andar com a maquiagem perfeita para atender aos clientes.
Ser velho te livra do sapato de salto e lhe apresenta as pantufas quentinhas e chinelos de dedo fresquinhos. Ser velho permite que você seja meio louco, mesmo dotado de sanidade, porque afinal, “velhos são gagás”, diz o senso comum. Você pode rir alto e falar palavrão, porque pensarão: “ah, ele(a) já não está bom da cabeça”, ainda que você esteja em pleno uso de todas faculdades mentais.
Aquela pochete e sunga podem caminhar juntas na praia, o chapéu e a sombrinha não serão estranhas aos outros em dias de sol e nem pensarão que você é um bom vivant se passar seus dias na praia. Suas rugas lhe darão passe livre para a emacipação, desde que você não se desespere com elas. Ser velho é libertador, acredito, enquanto desfruto minha vidinha sem temer o futuro que me espera.
Stela
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Publicado hoje aqui, ó: http://www.gazeta.inf.br/2013/10/15/as-vantagens-de-envelhecer/
Pra inspirar: http://www.youtube.com/watch?v=HFgi79BbrxI
De saudade não se vive, nem se morre.
Se matasse, essas linhas não teriam sido escritas. Se deixasse viver,
não andaria ao meu lado como um amigo imaginário, lembrando-me do que
não tenho.
Saudade é companhia indesejada. Caminha ao mesmo lado a passos curtos e
espreita os caminhos daqueles que dela não querem sofrer.
É a sombra de alguém, de lugares e momentos perdidos no espaço. A
saudade é o nome do amor transmutado pela distância, afastados pelos
imperativos geográficos ou da vida. Saudade é kriptonita e a presença
seu único antídoto. Não se morre dela e nem com ela se vive, apenas se
prossegue…
A iminência de um ataque norte-americano à Síria, provocado pelo suposto uso de armas químicas pelo governo Assad, coloca em xeque não apenas as intenções dos Estados Unidos nessa ofensiva, mas também derruba de vez a ilusão de um governo democrata baseado na “esperança” – um dos slogans da primeira campanha de Barack Obama, eleito em 2008.
Se confirmada, a intervenção militar será a segunda da história* deflagrada por um Prêmio Nobel da Paz, concedido a Obama em 2009. Na época, ele comandava as iniciativas contra o Afeganistão e o Iraque, com a diferença de que elas haviam sido herdadas de seu antecessor, George W. Bush.
A questão central sobre a possível guerra gira em torno sobre o interesse real da empreitada. Obama consultou o congresso, de quem espera o aval (ou não, sabe-se lá) para a invasão. Os Estados Unidos ainda pagam a conta de suas guerras anteriores, que resultaram em cortes de investimento na área social. Enquanto isso, empresas como a do ex-vice-presidente Dick Cheney lucraram milhões de dólares com a Guerra do Iraque, conforme revelou o Financial Times, em artigo traduzido ao Brasil pela Revista Fórum.
Nem o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) deu o aval ao ataque, o que tornaria a ação ilegal, segundo analistas como o próprio ex-presidente do país, Jimmy Carter. Em 1999, Estados Unidos já haviam contrariado o órgão com a Guerra do Kosovo. A justificativa, sempre ligada às causas humanitárias, não impede a morte de civis.
E se muitos brasileiros se sentem distantes da possível guerra à Síria, nós que vivemos aqui na fronteira, especialmente, não podemos nos calar. Desde o início da imigração árabe no Brasil, Foz do Iguaçu tem recebido sírios, libaneses e outros povos da região que fizeram daqui sua casa e elegeram o Brasil como lar. Resta torcer para que a paz fale mais alto ao Nobel Obama.
* "Obama não seria o primeiro prêmio Nobel a liderar uma
intervenção armada contra um país. Esse título cabe a Nelson Mandela, que
ganhou o prêmio em 1998 e mandou invadir o Lesoto em 1999.", lembrou meu amigo e jornalista Jean-Philip Albert Struck.
“Viver melhor com menos” é uma daquelas frases-feitas em voga há algum tempo, desde quando começaram as críticas à sociedade de consumo. O conceito autoexplicativo é bonito de se ler, mas difícil de ser aplicado. Somos compelidos o tempo todo a consumir – e, mesmo com pinta de vilão, o consumo é a mola que faz girar a economia.
Sem consumo e pode de compra, o sistema trava. Por este motivo, um dos modos de manter essa engrenagem operando no atual sistema capitalista são políticas como a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). De forma simplista, são os carnês das Casas Bahia e os financiamentos de automóveis que mantêm milhares de empregos. Mas até quando? As recentes crises do sistema financeiro internacional, os protestos mundiais e outros indícios mostram que o sistema capitalista – e a própria sociedade de consumo – entrou em colapso, situação que pode resultar ou não em derrocada. A economia tem propriedades orgânicas – e como qualquer elemento vivo sofre transformações. E os modelos conhecidos parecem não dar conta do futuro. Para onde iremos então?
Somos reféns e dependentes do consumo, numa relação de total simbiose. Nós nos definimos nossa identidade pelo que compramos e não pelo que somos, como argumenta o sociólogo polonês Zygmunt Baumann.
As reflexões em torno destes temas me levaram à tomada de uma decisão. A partir do dia 14 de agosto, data na qual eu comemoro mais um ano de vida, lutarei contra meus ímpetos consumistas e passarei 365 dias em um jejum específico. Até que eu assopre velinhas em 2014, não comprarei nenhuma peça de roupa, nenhum par de sapatos. Okay, minha atitude pode não colocar em risco o sistema capitalista, nem causar uma demissão em massa, mas já me sinto de certa forma mais livre. É um desafio, já que acredito ter o suficiente para me vestir e calçar por este prazo.
Quero viver melhor com menos. E espero que o mundo encontre uma forma de que todos, especialmente àqueles para os quais “o menos” impera no cotidiano, tenham um modelo melhor de futuro. Ainda que não saibamos qual será.
Queria escrever algo novo, descontextualizado dele,
estratégia boa para não parecer assim muito envolvida. Com medo de assustá-lo,
decidiu ser melhor tratar sobre qualquer outro assunto alheio às coisas do
coração.
A campanha mal sucedida de seu time no Campeonato Brasileiro, a goleada do Barça sobre o
Santos e até a anemia de Neymar poderiam dar cabo de um texto. Havia ainda
aquela entrevista do Zygmunt Baumann no Café Filosófico, sua única incursão pela
TV neste fim de semana. Só Baumann e seus conceitos sobre a fragilidade dos
laços humanos tomariam os dois mil toques de sua coluna semanal. Poderia falar
sobre a modernidade e o amor líquidos, termos cunhados pelo sociólogo, e isso
daria um ar intelectualizado aos seus escritos. Pronto: de tal maneira,
mostraria que segue seu caminho da mesma forma com que tocara a vida até agora.
Havia ainda a opção menos cult e antihipster de falar sobre exercícios físicos e a
importância do Whey Protein para quem já tem massa cefálica ativa o suficiente,
mas carece de músculos à altura de sua disposição para o pensamento.
O texto poderia também ser político-partidário, porque ela poderia
citar a investigação do propinoduto tucano nas obras do Metrô de São Paulo e as
investigações internacionais sobre o caso. Daí poderia dizer que a suspeita é
da ordem de "R$ 400 e poucos milhões" de bufunfa desviada, coisa que deixaria
qualquer Maluf com vontade de fazer um túnel a mais na linha do trem da
capital paulistana.
Seria bom para eles que ela escrevesse sobre esses fatos
cotidianos, “porque é o tipo de coisa interessante para se conversar no café da
manhã”, concluiu. Ela comprovaria, em tese, que “tem mais a fazer da vida” do que pensar
nele - uma mentira descarada- porque todas as coisas acima perdem a importância quando ele a abraça, instante
no qual um calor envolve seu coração e continua em brasa mesmo quando ela está
a tocar o dia a dia.
Calma,
estou de partida, mas você vai comigo nessa bagagem chamada sentimento. Vai
embora dentro de mim como as coisas que não podem ser deixadas para trás, como o sotaque
da terra onde eu nasci.
Vou e não te deixo para trás porque você é o que está à
frente, nas lentes dos meus óculos, onde lhe enxergarei mesmo sem te ver. Porque
você é o futuro construído a partir dos momentos nos quais coloriu o meu
passado recente.
Ao partir, é você que estará no meu sorriso quando eu me
lembrar do seu, no traçado de meia-lua da minha boca no momento em que eu me
lembrar da sua na minha.
Todos os
dias, daqui em diante, conviverei com a ansiedade de te ver novamente com a
tranquilidade de ter lhe encontrado – sensação parecida àquela ao me deitar no
seu peito, quando seu corpo me fez abrigo, e as batidas do meu coração pulsavam
fora de compasso, acima dos 84 batimentos por minuto.
Você vai
comigo porque é denso como ósmio e irídio, suave como a noite de Fitzgerald. Um
ser oblíquo nessa minha vida de caminhos paralelos. Estou de partida e você
também, porque um pouco irás comigo, aqui dentro do meu coração.
“Tem coisas que só saem da gente por escrito”, era o que estava grafado lá no muro vermelho na rua de pedregulhos irregulares e casas antigas e mortas, caminho obrigatório dela, por onde passava todo santo dia, na volta do trabalho. Na primeira vez que viu o cartaz, estremeceu. Correu para sua casa, duas ruas ladeira acima.
Abriu o pequeno portão de ferro e com a porta de vidro principal ainda aberta buscou seu baú posto no canto da sala. Uma sensação de alívio percorreu seu corpo quando encontrou lá todos os seus 15 diários incautos, páginas que guardavam ano a ano seus gritos ocultos. Eles eram sua comunicação silenciosa com o mundo, porque só com papel e a caneta em mãos conseguia ser ela mesma. Sua comunicação verbal era pífia: costumava trocar “lé por crê”, “pão por chão”. E o pior: em algumas ocasiões esse tipo próprio de dislexia verbal a tinha levado a criar rimas pobres e espontâneas, dessas que a gente vê muito num certo tipo de música na atualidade. Coisas como dor com amor, assim com mim, coração com paixão e solidão.
Uma vez, seu Zé, o dono da venda do bairro, perguntou-lhe: - Como vai seu pai? Sem pestanejar, respondeu: “- Vai bem, mas de casa nunca sai”. A inversão do sujeito, verbo e predicado fora a gota d’água para que desistisse da conversa com as pessoas. O jeito era evitar o diálogo cara a cara. Só com as letrinhas cursivas é que era boa de prosa e de verso.
Por temer que suas memórias fossem também embaralhar a gramática, decidiu não confiar nelas. Assim surgiram os diários e depois, ao perceber que sua escrita era bem melhor que a fala, guardou para si o som de sua voz. Desde então, passou a se comunicar apenas por bilhetes, cartas, muito antes do advento da internet que vocês usam por aí. Por isso, quando viu aquele cartaz no muro vermelho, pensou ter sido para ela o recado. Baú aberto, viu quando uma gota de suor caiu sobre um de seus cadernos, fechados hermeticamente, tanto quanto sua boca.
Recobrou o ar e sem perceber, num tom tão alto que pôde ser ouvida até por quem passava duas ruas ladeira abaixo, disse: “Tem escritos que não saem da gente por coisa alguma”. E voltou a se calar.
_________ Inspirado na minha capa do Facebook, que coletei no Coletivo Transverso (e de que não sei a autoria exata para citar aqui, infelizmente). Escrito para o Espaço G, da Gazeta do Iguaçu.
Dias desses vi ao acaso (juro!) um clipe do Maroon 5 que me levantou a seguinte questão: há uma fórmula básica para os clipes da banda no qual sempre estaria presente a fórmula Adam-vocalista-sexy-symbol-sem-camisa-pegador-ferido?
Movida pelo espírito da ciência (imprestável), gastei boa parte dessa minha noite verificando alguns clipes da banda. De um lado do monitor, coloquei meu bloco de notas no qual escrevi palavras-chaves sobre minhas impressões. Do outro, rolava os vídeos do Maroon 5 (leia-se, Adam) do outro.
O resultado desta perda de tempo está abaixo. Se quiser perder alguns minutos de sua vida com algo desnecessário, vá adiante. AVISO ÀS FÃS: ESTE É UM TRABALHO [PSEUDO]CIENTÍFICO. Se acharem ruim, problema de vocês. Aviso aos demais: Não tenho a intenção de ser sexista ou nada parecido neste post. Não tenho culpa se o cara é como o lobisomem da saga Crepúsculo e curte andar sem camisa.
This love
Como tudo começou.
Clipe veio, com menos recursos.
Pegação de Adam e modelo logo no começo, mordida no beiço.
A banda ainda aparecia. TE quero, não quero, te quero, não
quero.
Adam mais magro, cueca de fora. Interação com banda e
sakuras no concreto.
Adam beija, olha pra camera, mordeção só de calcinha.
Visual teen, munhequeira amarela descontextualizada. "O o oo
ooooou ooou"
Efeito ultrapassado lisérgico, mais pegação, blusa vermelha.
E aí apareceu areia no concreto. Tenis Adidas sem merchã.
Modelo magra olha, acarecia perna, Adam cai na areia, mas
era uma loira e outra morena? Não entendi.
She Will be Loved
Adam na piscina, lembra da namorada. Ou das namoradas.
Ainda não era Angel, modelo mais baixo orçamento.
Adam tá com uma e quer a mais velha que sensualiza de roupa
estampada com o tio de roupão.
Adam acha a mulher do Roberto Justos Cover e beija a Narcisa
Tamborendeguy jovem. "Wanna make you beautiful."
Ela é mãe da namorada de Adam, acho, mas ela só queria ser
amada.
Banda faz show no barzinho, ele tem a nova, mas quer a mais
veia também. Dança com a jovem, mas sabe que panela velha é que faz comida boa.
Pintura estranha ao fundo e ele olha pra madura jovem
balzaca que lembra do beijo com o namorado da filha. Ele não quer mais passar o
dia todo pensando na mãe da namorada, porque ela também apanha do marido.
Narcysa sai atacada e vai pra fonte. A jovem percebe que a mãe abraça o
namorado. Uma olha pra outra, eram a mesma pessoa. Adam ainda não usa regata.
One More Night
O resultado da pegação, Adam Pai de família, com dona de
casa estilo Angel da Victoria Secret.
Adam Balboa dá uma bitoca na mulher.
Mulher abandona Adam machucado.
Payphone
Assalto, tiroteio, dinheiro na mala. Ah, os caras da banda.
Mulher estilo Angel VS bancária,
Adam cara de nerd pega a pistola e foge com a gostosa, que a
essa altura já tá com a roupa abrindo e os cabelos soltos.
Rola um clima na fuga. Adam fodão foge no carro tipo do Speed
Racer.
Rapper faz intervenção básica.
Perseguição clichê com explosões, levanta e sacode e poeira.
Adam fica machucado e tira e fica de regata. Spoiler, só que
não.
Never Gonna Leave this bed
Adam e namorada Angel da VS tão na cama, no barco, na rua,
na chuva, na fazenda. Ela tá de bode, ele tá de bode. Não, eles tão felizes,
Banda aparece por fração de segundos. Adam volta a pegar a
namorada no caixote de vidro ambulante.
As invejosa "chora". Ele sem camisa, ela de
regata.
Adam hipster, usa wayfarer.
Os dois na cama no BBB. Não, não era o BBB, era na rua
mesmo. Ele de cueca samba-canção, colocou uma blusa. Ops, uma regata.
Tipo Yoko e Lennon do pop. Só que bonitos.
Wake up call
Ele tá de bode, ela mentiu pra ele.
Bonitona, mas de roupa não dá pra saber se Angel.
Não, ela tira a roupa.
A banda.
Adam na cama. Pegação. Mais gostosas.
Palavra love, Close caption.
Outro cara pegou a mulher.
Adam fodão, assassino de bandido traidor.
Pole dance, faz parkour. Carrão, mulher. Gostosas amarradas e com
desejo.
Pedofilia (medo, somos contra até de brincadeira)? Vegas babe? Striper, mais pole dance. Prisão da
banda.
Ele se sente mal. Fez errado, joga corpo.
Explode carro, clichê, mais gostosas. Suruba sugestionada,
Parkour, avião, "Puliça", roda roda, Adam ainda de camisa.
tira a camisa, em chamas.
If I Never
See Your Face Again com a Rihanna
Como tem Rihanna, acho que não vai rolar Angel da VS.
O vídeo tá carregando.
Adam de roupa, na beira da cama. Mãos da banda. Flash da
banda. Foca na Rihanna, foca no Adam.
Rihanna observa. E canta. Todo mundo vestido ainda.
Rihanna arranha o gato. O Adam, claro. A banda até que tá
aparecendo.
Rihanna canta, tá sem graça narrar este. A banda aparece, a
camisa num sai.
Ah, Rihanna na cama, seduz. Mas Adam só quer Angel que tava
no outro clipe.
Adam fodão, não traça Rihanna."Babe babe babe please believe
me.."
Fica nesse vai e vai e vem, que ninguém se dá bem.
Adam pega na nunca de Rihanna. E termina vestido, para
detonar minha teoria da regata. Damn it.
Misery
Adam cai na rua, Angel de calça coladinha arranca ele do
asfalto. Ele pega na bundinha.
Ficam se pegando na perifa. Mordida no lábio. Briga, alisa a
bariga negativa. Apanhando de forma cenográfica, atropelado. Se machuca, mas
não se fere.
Angel com luva quer cortar o... Adam. Brinca com faca nos
dedos, beija, chama a Maria da Penha que o homem tá apanhando, afoga no vaso,
mas não revida na mulher que pesa uns 40 quilos.
Atropelado de novo. Essa muié é o capeta, foge Adam pela
escada de incêndio, mas o mochila de criança tenta a Angel que fica do mal.
Adam só apanha, mas não tira a camisa.
Pior pancadaria cenográfica de todos os tempos. Ah, o cara
da banda. Atropelado também. Adam sangra, como de costume. Acertam outro cara
da banda. Coquetel molotov nos caras da banda. Adam corre e fica de camisa.
Love somebory
Adam pelado, mas tecnologia esconde. Vai passando meleca no
corpo. Tinta deixa ver os peitinhos dele os caras da banda estão vestidos
porque pelado só um, né. Mulher-meleca começa a surgir pra fazer companhia.
braços, mãozinha. boca. Passa a mão na bunda, beija a meleca e sugere peitinho (tirem as crianças da sala).
Os caras tocam (os instrumentos enquanto Adam pega mulher-meleca-da-VS)
Mulher pega peitos de meleca, muita tinta tola e Adam na
pegação. Mulher de biquíni roda e dança. Adam cansou, apaga guria e caras da
banda. Tchau Angel. Boca do Adam some. Fim.
Moves like Jagger
Fiquei com preguiça justo nesta aqui.
Adam sem camisa. Deu pra mim, baixo astral.
Minha conclusão é que a fórmula realmente se repete com frequência. Maroon 5 deveria ser Maroon 1, não?
Esse Adam, né? E eu que achava que trocar de top era só mudar a parte de cima pra ir fazer exercício...