quinta-feira, maio 23, 2013

O estupro nosso de cada dia


Na noite dessa quarta-feira (22) uma mulher de 34 anos foi estuprada depois ter seu carro parado por uma pane na Marginal Tietê, próxima à Avenida do Estado. Era 18h30. O criminoso fingiu ser mecânico e ofereceu ajuda à vítima, uma das 16 milhões de pessoas que vivem na maior cidade do País, São Paulo.

A moça, psicóloga, dirigia um Fiat Idea, o mesmo modelo de carro com o qual eu passava pelo mesmo lugar duas vezes por semana. Por três anos, percorri com esta regularidade os 24,5 km da Marginal Tietê. Na maioria das viagens eu estava sozinha. Às vezes, eu passava por ali tarde da noite, mas foi à luz do dia que eu fui ameaçada neste mesmo caminho.

Eu estava em direção da Cidade Universitária, dirigindo com vidros fechados, de óculos escuros de armação azul e lentes grandes, blusa fechada, saia comprida. Todos os veículos das faixas seguiam velocidade regular. Uns 50 km/h, uma boa fluidez, se você considerar que se tratava de São Paulo num dia qualquer de semana.

O tráfego reduziu um pouco e pude ver o motorista da frente acenando pra mim. Achei que era problema no carro. Verifiquei o painel, portas. Nada. A fila foi freando até manter uns 20 km/h. Pude ver melhor o moço do veículo na frente, um carro esportivo, novo, preto. Um Golf ou um Tipo, talvez. Nunca entendi de carro. Fiz um movimento com os braços, com as palmas das mãos para cima. Perguntei séria: “O que?”. O cara colocou a mão esquerda pra fora do vidro. E começou a fazer sinais com os dedos. Um V? Um três? Hum, um dois? Cinco?

Intrigada, olhei no retrovisor dele e vi que ele balançava a mão com polegar e mindinho abertos, os outros três dedos fechados. Deduzi que era um sinal de telefone. O cara parecia dizer: liga pra mim!
Consegui uma brecha, mudei de faixa, acelerei. Ele veio atrás. Da segunda para a terceira faixa, da terceira para a quarta, ficamos nessa dança. O carro me perseguia e foi aí que fiquei com medo. Ele conseguiu emparelhar do meu lado e gritava pra mim. Eu respondi de cara feia: “sou casada!”, mas mantive os vidros fechados.  Eu já era divorciada, mas não pensei em nada diferente. Ele fez um sinal com as mãos e meu conhecimento empírico de leitura labial leu o que ele me disse: “Tenho pau grande. Você gosta?”. Não tenho dúvidas de que esta foi a frase dele.

Acelerei, mudei de faixa de novo. Consegui pegar a pista que eu precisava, a da direita, e subi o pontilhão de acesso à Marginal Pinheiros. Ele sumiu e senti um alívio ao sentir o cheiro fétido do Rio Pinheiros e da empresa de remédios logo após o fim da ponte. Tive medo se continuar sendo perseguida, de ser pega, de ser arremessada na água dos rios. Tudo pareceu muito rápido.

Tive sorte porque meu Fiat Idea não parou como a da psicóloga. Cheguei na USP, falei com uma amiga sobre o incidente, chocada. Meu primeiro questionamento foi: o que eu fiz para provocar isso? Sim, fui seguida na Marginal por um tarado e me senti culpada por alguns momentos. O senso comum apregoa que a culpa é da Eva, que comeu a maçã, certo? Teria eu dado algum indício de sexo livre na Marginal Tietê? Não. Eu não dei, respondi ao meu próprio preconceito.

Okay, você pode achar que isso não é violência, porque não fui tocada pelo estuprador em potencial. Pode parecer que “virou moda” falar de estupro. Eu mesma compartilhei dois textos nesta semana no Facebook sobre as agruras de ser do gênero feminino. Mas o que você não saibe, talvez, é que o que deve sair de moda é mesmo essa violência invisível e falar sobre essas minhas experiências, ainda que negativas, fazem com que eu me sinta mais forte. Que eu reforce para mim que, se pudesse voltar no tempo, teria denunciado todos os agressores que encontrei ao longo da minha vida.

Aos seis anos de idade, um coleguinha meu da escola “primo da prima do meu primo” e seu vizinho tentaram me estuprar na garagem da casa dele, onde eu sempre ia para brincar. O meu amigo tinha sete anos. Seu vizinho, uns 10, 11. Eles me levaram à garagem e disseram: “a gente quer comer você”. Eu pensei que era algo relacionado ao canibalismo. Fiquei assustada e eles me explicaram: “não, tire a sua calcinha, é assim, assado...”. Eu fugi e fiquei embaixo da cama da irmãzinha do meu colega até meu pai me buscar.
Fiquei mais de 10 anos sem falar com este menino, que estudou na minha sala por uns três anos ainda. Nós nos encontrávamos em festas de família, vez ou outra. Já adultos, ele me perguntou: "por que você não gosta de mim, Stela?". Ele não se recordava. Expliquei. Ele ficou envergonhado, jurou não se lembrar. Eu o perdoei. Éramos crianças, certo? Voltamos a ser amigos. Minha raiva passou, mas naquele dia, há tantos anos, um pouco da minha inocência já fora perdida. Talvez eu tivesse que fugir outras vezes. Como, de fato, ocorreu.

A primeira vez que vi um homo erectus foi numa tentativa de estupro. Eu tinha 14 anos, trabalhava numa pequena loja de camisetas. Este cara, que passava de bicicleta todos os dias na frente do estabelecimento e me falava baixarias, um dia entrou no lugar e pediu para experimentar uma roupa. Eu peguei a camiseta e indiquei o banheiro (não havia vestiário). Ele entrou e saiu sem calça, sem cueca. Com um pênis armado pro meu lado. Eu nunca tinha visto um homem sem calças, muito menos naquele estado. Eu corri e peguei o ferro de baixar a porta da loja. Peguei a barra, gritei qualquer coisa e saí, chorando. Pedi ajuda à vizinha, larguei a loja sozinha. E chorei por horas. 

O criminoso – ironicamente cara e vestes de Tiririca, pelo que me lembre -, nunca foi denunciado por mim. Minha mãe reduziu a importância do incidente. Mandou-me trabalhar de volta. O cara não voltou e soube depois, pela minha prima, que ele era carcereiro na Cadeia Pública. Como ela descobriu? Comentando com um e outro sobre o tarado. Antes de mim, era pra ela, que me antecedeu no mesmo trabalho, a quem ele dirigia suas baixarias. Ela também tinha 14 anos de idade.

Em uma dessas incursões de violência, por volta dos 19 anos, eu não consegui fugir. Fui pega não por um desconhecido, mas por alguém com quem eu me esbarrava vez ou outra. Novamente, eu chorei. E “esqueci”.

Nunca havia elencado estas experiências e trazê-las à tona, no papel, é um alívio e uma tristeza. Porque há outras coisas, como ouvir de um chefe que “não contratará mais mulher, porque mulher fica muito doente”. Ou aquela vez que eu menino de rua apertou meus seios no meio da rua, quando eles ainda estavam mal formados. Ou quando um você tem que insistir para um homem usar preservativo, embora alguns deles argumentem que “é como chupar bala com papel” – como se para nós mulheres tanto fizesse a sensação "bala encapada" ou "sem embrulho", e como se fosse um fado nosso esta reivindicação. Ou naquele dia que você quis terminar um relacionamento, por falta de amor ou outro motivo, e levou puxões de cabelo, mordida na mão, entre outras agressões físicas e verbais como "vagabunda, desgraçada".

É triste que este desejo de me expor tenha ocorrido justamente agora, quando esta moça foi estuprada na Marginal Tietê. Mas se ela não se calou, por que devemos nos calar, mesmo a posteriori? E se o silêncio é a conivência, gritemos para que essas histórias sejam denunciadas, punidas, compartilhadas. Eu prometo nunca mais me calar. O estupro nosso de cada dia não merece mais fazer parte de nosso cotidiano.

Stela Guimarães

23 comentários:

Anair Martins disse...

Querida Stela me identifiquei com a parte que fala do homem que foi provar a camiseta na loja, tive uma experiência parecida:Eu ia todos os dias buscar o Rodrigo e a Lígia na escola,numa tarde de junho fria e chuvosa estava eu indo tranquila de guarda-chuva,qdo derepente um carro atravesou na minha frente na calçada, e de dentro dele saiu um homem cujo rosto não lembro ,só lembro que estava nu da cintura pra baixo e que tentou me agarar, eu corri tanto que neste dia eu teria sem duvida nenhuma bateria o recod dos 100 metros rasos, ele voltou pro carro e continuou me perseguindo,por sorte, no caminho tinha uma malharia e estava com as portas abertas,na qual entrei desesperada.a senhora chamou a policia e eu fiquei ali em prantos por um bom tempo.só sei que fiquei tão traumatisada que por muitos anos se encontrase um homem vindo na minha direção eu atravesava a rua,qdo vejo uma reportagem como a da mulher da marginal, me sinto correndo e aquele homem nú atraz de mim,muito bom seu texo.um beijo.

Andresa Cristina disse...

Parabéns Stela!!! Mais do que curti o seu texto e a sua coragem!!! :)

Joselani disse...

E depois acham que mulher é frágil! Somos submetidas a todo tipo de violência ao longo da vida e ainda temos força e coragem de nos mantermos de cabeça erguida, sorriso no rosto e muita dignidade pra enfrentar tudo da melhor maneira.
Parabéns pelo texto e por compartilhar situações que, com certeza, muitas de nós já passaram, o que ajuda a debelar qualquer fantasma que possa nos atormentar.

Anônimo disse...

Parabéns pela coragem e atitude, Stela. Texto fantástico

claudio benetta disse...

Parabéns pela coragem. A mulher precisa expor essas experiências, para que os homens entendam o que fazem e - às vezes - até esquecem. Como teu amigo de infância. Certamente ele esqueceu, mesmo. Como diz o ditado popular, quem bate esquece. Mas quem apanha, jamais. Nem todo homem é um pulha, mas quanto mais conscientização, menos pulhas, tarados e cretinos surgirão.

Elaine Castro disse...

Obrigada por ter a coragem de compartilhar.

Anônimo disse...

Linda.

Mayara Lopes disse...

Infelizmente, a grande maioria das mulheres tem alguma história para contar....

Anônimo disse...

Adorei o texto. E, sim, chega de negligência em relação à violência diária às mulheres. Você abordou muito corajosamente a questão. Adorei.

Anônimo disse...

Bem, ja tive varias tentativas, e 2 concretizadas.. e me calei. As tentativas esqueci... as concretizadas.. 1 foi durante anos na infancia,eternamente calada, com medo das ameaças e outra foi depois de grande. Eu nao fuia a primeira vitima, e ele estava acostumado a se virar qndo chegava ali na justiça!

Até quando? Aposto que muitas pessoas dzem q quem se veste com roupas curtas está dando brecha, e no meu caso, q sempre tive vergonha de roupas que mostrassem meu corpo, qual a desculpa?

Melissa disse...

parabens pela coragem Stela!

Obrigada por compartilhar.

Isso é expor nossos "demonios". Coisas tao intimas e tao sérias. Talvez se eu expusesse os meus assim, na internet, no meu blog... algumas coisas ficassem mesmo para trás, ficassem mesmo enterradas, porque saíram. Já contei na análise, já contei pra amigos íntimos. Vc contou de verdade.

Que Jesus possa estar contigo em todos os dias da sua vida. Em frente, avante.

teve um porteiro de um predio que eu morei que quis me mostrar tb... eu era crianca, nao entendia... teve tantas pequenas coisas... sao agressoes ... agressoes...

Carlos disse...

É um assunto muito mais grave e muito mais frequente do q parece. Praticamente todas as mulheres q eu conheço passaram por situações assim e nenhuma delas estava "dando condição", ou "vestida de um jeito vulgar". Nada disso. É como alguém disse no twitter esses dias, matando a charada: "estupro não é sobre desejo e libido, mas sim misoginia e dominação". Não são questão físicas, hormonais e sexuais q estão em jogo, mas sim mentalidades entranhadas de q mulheres estão aí pra isso mesmo e acabou, tem q aguentar td, e servir. É preciso falar sobre o assunto, denunciar, e nunca se culpar, já q o agente da ação é sempre o infeliz q comete algum tipo de violência, ainda q sugerida, verbal. Parabéns pela coragem do relato, e espero q ele incentive mais moças a não se calarem.

Stela disse...

Obrigada, mesmo, a todos e todas que comentaram aqui e compartilharam o texto.

Eu não imagina uma repercussão como esta, escrevi "numa tacada só", pelo espírito de compaixão e de identificação com essa moça que foi estuprada na Marginal Tietê.

Na verdade, a história me fez lembrar daquele incidente na mesma via e de tantos outros pelos quais já passei.

Durante muitos anos nunca me senti como vítima desses casos - e quem me conhece sabe que sou dada à alegria, tristeza e vitimização não é parte da minha personalidade.

Pensei, por muitos anos, que violência contra a mulher era coisa de pessoa que apanha do marido sistematicamente. Coisa de "baixa renda" e de mulher dependente do ponto de vista financeiro de seu companheiro. Porque é assim a imagem vendida para nós da vítima de violência sexual, não é?. Preconceito ou desconhecimento, tanto faz qual adjetivo eu poderia dar para isso.

Passado os anos é que me dei conta do quanto medo senti nessa vida simplesmente por ser mulher. Morei muito tempo próximo da rodoviária da minha cidade natal e para chegar em casa eu tinha que passar por uma rua sem saída e escura. Aquilo era meu pesadelo diário na volta da faculdade porque sempre tive medo do estupro clássico, feito por um desconhecido. Não era assalto que eu temia. Era estupro.

Com a maturidade veio a clareza de que a violência está tão diluída e é, de muitas formas, aceita na sociedade que fica difícil ver quando o estupro acontece de maneira mais indireta. Dizer que um não de uma mulher é charminho é usar da semântica para estuprá-la.Essas coisas é que não são percebidas e devem vir à tona.

Enfim, o que gostaria de dizer aqui - e para mim é muito importante ressaltar isso - apesar destas experiências (algumas e não todas pelas quais passei), eu conheci muito mais homens legais nesse mundo a cretinos como os supra citados. Tive um companheiro que entendeu minha abstinência sexual por muitos meses, após o nascimento do nosso filho, tive um namorado excelente com quem perdi a virgindade após um ano de namoro, porque eu quis, tive amigos homens e heterossexuais que dormiram comigo na mesma cama e não me agarraram ou foram ameaçadores. Conheço homens maravilhosos e mulheres incríveis que me fazem acreditar em um mundo melhor no futuro. Minha mãe é uma dessas pessoas, a mulher mais incrível que conheci. E tenho um filho maravilhoso, pessoinha de quem eu tenho certeza que as mulheres do futuro só poderão esperar bons tratos. Então, se algum de vocês teve vontade de chorar, não é necessário. Porque eu praticamente só tenho motivos para sorrir.

Stela disse...

ops, tem uns erros de digitação acima aí.

*esperava

Stela disse...

*tristeza e vitimização não fazem parte...

Fabiana Nogueira Chaves disse...

Sou a amiga com que Stela conversaou quando chegou a USP, apavorada e nervosa. Somos obrigadas a conviver com o medo o dia todo, todo dia. No transito, quando caminhamos sozinhas pela rua... Várias situações como estas acontecem todos os dias consoco.. Várias... Homens que nos assediam, buzinam, mandam beijinhos... E ainda tem a cara de pau de dizer que é elogio. Assedio não é elogio. Precisamos reagir. Nos encolhermos ainda mais não seria aceitável nem digno..

Edigeny S. Barros disse...

Que absurdo! A maioria das pessoas acha normal, já que não houve toque.
Normal por quê? Se fosse com um homem, as pessoas reagiriam de maneira diferente. Claro, seria algo diferente! É como se nós, mulheres, tivéssemos que aceitar essas asneiras, simplesmente pelo fato de sermos MULHERES. E o respeito, fica em que parte da história?

Natália Salomé disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Natália Salomé disse...

Olá, Stela!

Não nos conhecemos, mas encontrei o seu blog através de uma postagem no facebook.

É tão triste perceber como essa violência é diária. Há pouco tempo estava conversando com amigas e amigos sobre nossas infâncias, e percebemos que quase todos nós já havíamos sofrido muitas violências, inclusive sexual - e não necessariamente estupro - quando crianças. Só que isso tudo fica assim escondido, assim calado, como se um medo vedado percorresse nossos corpos e mentes.

Fico cada vez mais chocada e preocupada. A nossa sociedade está cada vez mais doente.

Obrigada pela força de compartilhar, essa é uma das ferramentas para nosso empoderamento.

Abraços fraternais

Stela disse...

Edigeny e Natália, obrigada pelos comentários. Pois é, eu ainda tenho esperanças que a sociedade esteja melhor, a única diferença é que talvez nos sintamos mais seguras para falar agora. Ou nos indignemos mais. Sinto-me satisfeita por levar outras mulheres a se sentirem seguras para falar, denunciar seus agressores ou mesmo educar seus filhos e filhas para um mundo menos machista. Ontem duas amigas me relataram ter sofrido agressões - uma estuprada por um conhecido e outra, quando tinha 13 anos, viu um homem masturbando-se na rua. O estupro clássico é uam falácia, mas não nos esqueçamos dessas violências invisíveis. Agradeço mesmo pelos comentários, é como se com eles formássemos uma corrente do bem (pode parecer piegas, mas é como me sinto).
Abraço!

Ah, Edigeny, um amigo meu compartilhou esse meu texto no Facebook e foi com a sua foto na miniatura! Eu disse que ele errou de ruiva (o facebook permite a escolha da miniatura e ele não me reconheceu, danado). Pedi que ele exclua a sua foto de lá, para evitar mal entendidos.

Abraços fraternais novamente!

Edigeny S. Barros disse...

Mil anos depois, vi seu último comentário, Stela. HAHAHA!
Okay :)

Edigeny S. Barros disse...

Mil anos depois, vi seu último comentário, Stela. HAHAHA!
Okay :)

Stela Guimarães disse...

Tudo bem! :-)