quinta-feira, maio 23, 2013

O estupro nosso de cada dia


Na noite dessa quarta-feira (22) uma mulher de 34 anos foi estuprada depois ter seu carro parado por uma pane na Marginal Tietê, próxima à Avenida do Estado. Era 18h30. O criminoso fingiu ser mecânico e ofereceu ajuda à vítima, uma das 16 milhões de pessoas que vivem na maior cidade do País, São Paulo.

A moça, psicóloga, dirigia um Fiat Idea, o mesmo modelo de carro com o qual eu passava pelo mesmo lugar duas vezes por semana. Por três anos, percorri com esta regularidade os 24,5 km da Marginal Tietê. Na maioria das viagens eu estava sozinha. Às vezes, eu passava por ali tarde da noite, mas foi à luz do dia que eu fui ameaçada neste mesmo caminho.

Eu estava em direção da Cidade Universitária, dirigindo com vidros fechados, de óculos escuros de armação azul e lentes grandes, blusa fechada, saia comprida. Todos os veículos das faixas seguiam velocidade regular. Uns 50 km/h, uma boa fluidez, se você considerar que se tratava de São Paulo num dia qualquer de semana.

O tráfego reduziu um pouco e pude ver o motorista da frente acenando pra mim. Achei que era problema no carro. Verifiquei o painel, portas. Nada. A fila foi freando até manter uns 20 km/h. Pude ver melhor o moço do veículo na frente, um carro esportivo, novo, preto. Um Golf ou um Tipo, talvez. Nunca entendi de carro. Fiz um movimento com os braços, com as palmas das mãos para cima. Perguntei séria: “O que?”. O cara colocou a mão esquerda pra fora do vidro. E começou a fazer sinais com os dedos. Um V? Um três? Hum, um dois? Cinco?

Intrigada, olhei no retrovisor dele e vi que ele balançava a mão com polegar e mindinho abertos, os outros três dedos fechados. Deduzi que era um sinal de telefone. O cara parecia dizer: liga pra mim!
Consegui uma brecha, mudei de faixa, acelerei. Ele veio atrás. Da segunda para a terceira faixa, da terceira para a quarta, ficamos nessa dança. O carro me perseguia e foi aí que fiquei com medo. Ele conseguiu emparelhar do meu lado e gritava pra mim. Eu respondi de cara feia: “sou casada!”, mas mantive os vidros fechados.  Eu já era divorciada, mas não pensei em nada diferente. Ele fez um sinal com as mãos e meu conhecimento empírico de leitura labial leu o que ele me disse: “Tenho pau grande. Você gosta?”. Não tenho dúvidas de que esta foi a frase dele.

Acelerei, mudei de faixa de novo. Consegui pegar a pista que eu precisava, a da direita, e subi o pontilhão de acesso à Marginal Pinheiros. Ele sumiu e senti um alívio ao sentir o cheiro fétido do Rio Pinheiros e da empresa de remédios logo após o fim da ponte. Tive medo se continuar sendo perseguida, de ser pega, de ser arremessada na água dos rios. Tudo pareceu muito rápido.

Tive sorte porque meu Fiat Idea não parou como a da psicóloga. Cheguei na USP, falei com uma amiga sobre o incidente, chocada. Meu primeiro questionamento foi: o que eu fiz para provocar isso? Sim, fui seguida na Marginal por um tarado e me senti culpada por alguns momentos. O senso comum apregoa que a culpa é da Eva, que comeu a maçã, certo? Teria eu dado algum indício de sexo livre na Marginal Tietê? Não. Eu não dei, respondi ao meu próprio preconceito.

Okay, você pode achar que isso não é violência, porque não fui tocada pelo estuprador em potencial. Pode parecer que “virou moda” falar de estupro. Eu mesma compartilhei dois textos nesta semana no Facebook sobre as agruras de ser do gênero feminino. Mas o que você não saibe, talvez, é que o que deve sair de moda é mesmo essa violência invisível e falar sobre essas minhas experiências, ainda que negativas, fazem com que eu me sinta mais forte. Que eu reforce para mim que, se pudesse voltar no tempo, teria denunciado todos os agressores que encontrei ao longo da minha vida.

Aos seis anos de idade, um coleguinha meu da escola “primo da prima do meu primo” e seu vizinho tentaram me estuprar na garagem da casa dele, onde eu sempre ia para brincar. O meu amigo tinha sete anos. Seu vizinho, uns 10, 11. Eles me levaram à garagem e disseram: “a gente quer comer você”. Eu pensei que era algo relacionado ao canibalismo. Fiquei assustada e eles me explicaram: “não, tire a sua calcinha, é assim, assado...”. Eu fugi e fiquei embaixo da cama da irmãzinha do meu colega até meu pai me buscar.
Fiquei mais de 10 anos sem falar com este menino, que estudou na minha sala por uns três anos ainda. Nós nos encontrávamos em festas de família, vez ou outra. Já adultos, ele me perguntou: "por que você não gosta de mim, Stela?". Ele não se recordava. Expliquei. Ele ficou envergonhado, jurou não se lembrar. Eu o perdoei. Éramos crianças, certo? Voltamos a ser amigos. Minha raiva passou, mas naquele dia, há tantos anos, um pouco da minha inocência já fora perdida. Talvez eu tivesse que fugir outras vezes. Como, de fato, ocorreu.

A primeira vez que vi um homo erectus foi numa tentativa de estupro. Eu tinha 14 anos, trabalhava numa pequena loja de camisetas. Este cara, que passava de bicicleta todos os dias na frente do estabelecimento e me falava baixarias, um dia entrou no lugar e pediu para experimentar uma roupa. Eu peguei a camiseta e indiquei o banheiro (não havia vestiário). Ele entrou e saiu sem calça, sem cueca. Com um pênis armado pro meu lado. Eu nunca tinha visto um homem sem calças, muito menos naquele estado. Eu corri e peguei o ferro de baixar a porta da loja. Peguei a barra, gritei qualquer coisa e saí, chorando. Pedi ajuda à vizinha, larguei a loja sozinha. E chorei por horas. 

O criminoso – ironicamente cara e vestes de Tiririca, pelo que me lembre -, nunca foi denunciado por mim. Minha mãe reduziu a importância do incidente. Mandou-me trabalhar de volta. O cara não voltou e soube depois, pela minha prima, que ele era carcereiro na Cadeia Pública. Como ela descobriu? Comentando com um e outro sobre o tarado. Antes de mim, era pra ela, que me antecedeu no mesmo trabalho, a quem ele dirigia suas baixarias. Ela também tinha 14 anos de idade.

Em uma dessas incursões de violência, por volta dos 19 anos, eu não consegui fugir. Fui pega não por um desconhecido, mas por alguém com quem eu me esbarrava vez ou outra. Novamente, eu chorei. E “esqueci”.

Nunca havia elencado estas experiências e trazê-las à tona, no papel, é um alívio e uma tristeza. Porque há outras coisas, como ouvir de um chefe que “não contratará mais mulher, porque mulher fica muito doente”. Ou aquela vez que eu menino de rua apertou meus seios no meio da rua, quando eles ainda estavam mal formados. Ou quando um você tem que insistir para um homem usar preservativo, embora alguns deles argumentem que “é como chupar bala com papel” – como se para nós mulheres tanto fizesse a sensação "bala encapada" ou "sem embrulho", e como se fosse um fado nosso esta reivindicação. Ou naquele dia que você quis terminar um relacionamento, por falta de amor ou outro motivo, e levou puxões de cabelo, mordida na mão, entre outras agressões físicas e verbais como "vagabunda, desgraçada".

É triste que este desejo de me expor tenha ocorrido justamente agora, quando esta moça foi estuprada na Marginal Tietê. Mas se ela não se calou, por que devemos nos calar, mesmo a posteriori? E se o silêncio é a conivência, gritemos para que essas histórias sejam denunciadas, punidas, compartilhadas. Eu prometo nunca mais me calar. O estupro nosso de cada dia não merece mais fazer parte de nosso cotidiano.

Stela Guimarães

quinta-feira, abril 11, 2013

O som do oco




Passado o susto inicial da descoberta da infestação, decidiu não mais pensar nas aranhas. Havia desistido de providenciar o detefon mata-tudo, não porque o slogan era ruim (tinha baforado o inseticida tantas vezes e continuava viva que desconfiava da eficiência do seu enunciado). Um pesadelo com sapos e braços mutilados, costurados por teias por humanizadas e bondosos aracnídeos fizeram ela se afeiçoar aos artrópodes de seu quarto. E se estivessem lá para salvá-la? 

As aranhas a tinham levado pelo jardim secreto do oco do seu peito, e isso bastaria para uma redenção.  Sem elas jamais teria percebido esse rombo e já se afeiçoara ao barulho transpondo esse suposto vácuo. “VVvvviiiiiiiim”, era o som desse zunido constante que ricocheteava do seu cérebro para o ouvido e do ouvido para fora. Era a trilha sonora de seu pensamento e pensou: este é o barulho do nada, de quem não tem algo algum obstruindo sua caixa torácica do sentimento. “Vvvvviiiim”. Começou a gostar deste conjunto peito-vazio-mente-liberta-oco-onomatopéico, e a dele se afeiçoava aos poucos. Não queria mais que aranhas tapassem o vazio com sua teia. Viveriam cada qual em paz, em seu canto. Seu oco não era mais vazio. Seu corpo era agora um instrumento musical.

segunda-feira, abril 08, 2013

O oco das aranhas


Para minha amiga Marpessa de Castro
                                            

Havia muitas pequenas aranhas em seu quarto e hoje ela prestava mais atenção nelas a qualquer outro dia. Começaram como uma presença quase invisível, notada apenas pela poeira acumulada sobre as teias translúcidas. Aos poucos, foram ficando mais evidentes, como se não precisassem se esconder mais. As aranhas tinham perdido a timidez e agora suas pernas finas e corpos arredondados e pequenos faziam parte do seu cenário cotidiano.

Era nelas que pensava antes de dormir, e isso parecia preencher o oco descoberto recentemente no seu peito. Foi olhando para as aranhas, tão redondinhas, e nos filhotes que deviam carregar – porque se alastravam feito mamíferos lagomorfos pelo teto da casa – que ela teve sua epifania. “As aranhas parecem estar sempre cheias em seu interior. Eu estou vazia como o vento”.

A constatação de viver com um oco dentro de si a impedia de escrever qualquer crônica mais bem elaborada. Não podia falar de amor, com esse recôncavo dentro de si, e nem sobre a morte de Margareth Thatcher – de quem por razões estranhas temia quando criança, por causa do apedido “Dama de Ferro”, possivelmente.

Não poderia nem falar sobre artrópodes com propriedade, pois não era bióloga tampouco aracnológa. O que sabia sobre as aranhas tinha aprendido com Dona Lina, sua professora de Ciências, ou nas pesquisas da Wikipedia.

Constatou ser bobagem escrever sobre aranhas, pelo desconhecimento das espécies, mas o tema lhe parecia mais interessante a falar do seu peito oco. Imaginou porque tinha ficado assim, talvez seu interior não fosse vazio, mas cheio de teias empoeiradas de quem fez abrigo por lá. Possivelmente lhe faltava poeira para ver como estava cheio de vida, como ocorreu com as aranhas de seu quarto. Na velhice haveria de descobrir. Até lá, deixaria as janelas do peito abertas para o vento.

terça-feira, fevereiro 26, 2013

No passinho da visibilidade



De muitos fenômenos recentes da internet, um despertou minha curiosidade por reunir tantos significados. No Passinho do Volante criado pelos jovens da comunidade carente em Niterói (RJ), despi meus preconceitos e admito publicamente: gosto realmente da iniciativa de MC Federado e seus Lelekes.

Com gestualidade simples e o refrão grudento “ah, lelek, lek lek lek”, eles conquistaram mais de 30 milhões de visualizações no Youtube do vídeo gravado de forma caseira na comunidade Coronel Leôncio, no bairro da Engenhoca, onde vivem. Para produzi-lo, eles convidaram os vizinhos e investiram R$ 70 numa churrascada coletiva. Quem foi à festa, dançou para a câmera de um tablet de um amigo, em troca da confraternização. Crianças, adultos, gordos ou magros estão lá, mostrando ao mundo o tal Passinho do Volante, em meio à vielas e até sobre uma Kombi abandonada.

O sucesso mudou a vida dos quatro jovens – de 18 e 19 anos – que passaram a excursionar pelo Brasil com o hit único. Pela internet, chegaram aos ouvidos e rádios de todas os estratos sociais. Neymar e Anderson Silva, personalidades que como eles emergiram da periferia, são fãs dos “lelekes”, um trocadilho para “moleque”, equivalente ao “piá” paranaense.

E onde está o diferencial do funk do lek, lek? Arrisco-me dizer que o hit pegajoso é um dos marcos que provam como o acesso à informação pode contribuir para a sociedade. Sem descambar nas letras de alusão ao sexo, o funk inocente deu voz e imagem aos invisíveis, que ganham contornos também graças à ascensão social recente de nosso país, que lhes garantiu acesso à web e aos bens de consumo.



  
Pela mesma rede que lhes deu visibilidade, é possível confirmar a importância daqueles jovens para a imagem do bairro. Uma simples busca pelo Google sobre Coronel Leôncio revela como o fenômeno acaba sendo um contrapeso para o noticiário da violência local. Dos cinco resultados principais, três relatavam execuções a tiros, enquanto dois apresentavam matérias sobre o sucesso de MC Federado e seus Lelekes.
Nas entrevistas, os jovens dizem que pretendem continuar na Coronel Leôncio, mesmo que venham a ganhar o suficiente para deixá-la, e investir em moradias melhores para suas famílias. Só depois é que vem o volante, sonho de consumo da maioria dos jovens, invisíveis ou não.

Meu texto publicado originalmente nesta data no Caderno 2 da Gazeta do Iguaçu: http://www.gazeta.inf.br/2013/02/26/no-passinho-da-visibilidade/

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Jogaram lodo no Carnaval luizense



O anúncio do patrocínio de uma grande cervejaria e a consequente intervenção da empresa no Carnaval de São Luiz do Paraitinga, a 150 Km de São Paulo, atingiu os amantes da cultura local com uma ferocidade comparável à enchente que assolou o município valeparaibano em 2010. Fomos pegos pela notícia da implantação de um camarote da cervejaria e, mais recentemente, pelo anúncio da programação musical com nomes como “Bonde do Tigrão”.

Como as águas do Rio Paraitinga que subiram lentamente naquela virada do ano para 2010, fomos sendo inundados por uma série de notícias sobre os rumos da festa para este ano. A diferença é que, desta vez, não houve equipes de rafting para nos salvar do impacto causado por essa inundação de incoerências administrativas.

Estamos sendo tragados pelas águas barrentas da má administração, da ingerência política e econômica sobre a cultura de um povo.

Pelo coletivo “nós” refiro-me aos milhares de admiradores da cultura luizense que, como eu, encontraram no Carnaval de São Luiz do Paraitinga um refúgio para as mazelas do mundo, um tempo de ser feliz independentemente de patrocínio, de abadás ou de bundas de fora.

Em sua defesa, a prefeitura tem alegado que os recursos na ordem de R$ 3 milhões ajudariam na revitalização da cidade, mas ignoram o impacto que a medida mercadológica pode causar à festa. O lodo das inúmeras inundações parece ter cegado os governantes locais. Sim, a Prefeitura de São Luiz do Paraitinga está cega.

No topo de sua soberba, o poder público – em consonância com os interesses do mercado – ignora “os quês e quais e poréns” daquilo que justamente transforma o Carnaval de São Luiz do Paraitinga em uma manifestação única, calcada nas tradições da cultura caipira e da musicalidade que dela adveio. Esta mesma identidade da festa que a levou como destaque às páginas do The New York Times certamente atraiu a patrocinadora. Esta é a lógica do mercado. Mas R$ 3 milhões justificam colocar por água abaixo toda construção dessa tradição reinventado do Carnaval luizense?

Será que a prefeitura e a Ambev ignoram o histórico da festa, que começou no formato adotado até 2012, com a exclusividade do estilo das marchinhas, como uma resposta à uma reportagem da Rede Globo, com a qual os moradores e artistas se sentiram ofendidos em 1980?  

Até que ponto o poder público pode interferir nas manifestações culturais emergidas da população?
Será que sequer avaliaram os motivos pelos quais a festa atrai milhares de foliões ano a ano? 

Desconhecem que a apropriação simbólica daquilo que é inerente ao povo da cidade, como seu sotaque arrastado e sonoro, transposto às marchinhas, é um dos principais atrativos ao folião, interessado nesta aura lúdica e de túnel do tempo locais?

Será que não avaliam que estão desconstruindo o ethos cultural da cidade, cuja religiosidade e as festas pagãs se interlaçam, e formam um dos pilares da identidade de São Luiz, que nada têm em comum com o repertório musical proposto pela Ambev ou nas letras do Bonde do Tigrão?

O que atrai turistas a São Luiz, senão seus aspectos particulares como a capital das marchinhas e cidade do Saci, o autêntico "raloim" brasileiro? Não é também um erro estratégico desmontar essa identidade que é justamente o que sustenta o turismo local? É se for para a cultura luizense se transmutar um dia, que seja da mesma forma que ela surgiu: das massas, e não do poder hegemônico de uma cervejaria ou do Estado.
 
Não se trata de puritanismo, como a oposição aos fatos acima podem imaginar. Mas de preservar aquilo que torna São Luiz especial – sua gente, suas alegrias e suas tradições.


Se em 1920 se temia que o carnaval levasse ao nascimento de rabo e chifre, só posso preconizar que o padre Monsenhor Ignácio Gioia estava certo. Só mesmo a arte do coisa ruim pode justificar a mistura de estilos no Carnaval luizense.

Stela Guimarães é jornalista, nascida no Vale do Paraíba, mestre em Comunicação pela Escola Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) com a dissertação “Do rabo e chifre às marchinhas: como uma reportagem da Rede Globo interferiu na criação do Carnaval de São Luiz do Paraitinga (SP)”, defendida e publicada em 2011.

terça-feira, janeiro 15, 2013

Aquela banda nova e a panela usada




Ela se sentia feliz porque pensava ser sorte conhecer, no mesmo dia, uma banda nova, da qual tinha ficado imediatamente fã, e um filme bacana, apesar de tê-la feito chorar. Andava emotiva e insistia em dizer que isso era raro, embora quem a conheça saiba o quanto é fácil emocioná-la por razões diversas, alegria ou tristeza, música ou cinema.

Desde pequenininha, ela chorava muito. Um ralado na perna da irmã mais velha era o suficiente para fazê-la derramar baldes de lágrimas. A situação era irritante para quem via de fora – especialmente para a primogênita de seus pais, durona na queda e de pouco chororô. “Menina, pára de chorar que eu estou bem”, dizia sua irmã mais velha sem a agressividade que as palavras escritas aqui podem esconder.

Daí até chegar a sua idade atual ela chorou e chorou tantas vezes, por tombos alheios, finais de novela, meio de filmes, notas na escola e até na última Copa do Mundo. De tanto chorar, ela deveria admitir que seu lado direito do cérebro é muito mais faceiro ao vizinho de massa cinzenta. Mas isso, para ela, seria como encarar uma derrota. Sua personalidade colorida, porém emotiva, não poderia vencer este duelo.

Agora, sentada sozinha em sua cama, ela pensava se a habilidade de traçar estratégias havia mesmo sido derrotada pelo apego emocional. Estava feliz porque a banda era realmente boa e o filme recém-visto – e comprado no camelô - tinham lhe proporcionado. E há dois dias ela comprara um livro com o qual estava se divertindo muito. O segundo best seller de David Nicholls, o “novo” Nick Hornby.

O trabalho ia bem, obrigada, e o saldo na conta não estava muito a contento, mas o abono do meio do ano ia ser bom. Então não havia muito com que se preocupar. Estava saudável, apesar de alguns espirros e do cansaço da viagem do fim de semana. Havia feito hidratação no cabelo e suas unhas do pés estavam feitas. Em tese, tudo certo.

Mas aquele anúncio feito por ela no jornal, da vitrolinha que ele precisava vender antes de partir, parecia rodar em delay eterno. Um tormento besta, para que ela se lembrasse dele e daqueles dias bobos, despretensiosos e reconhecidos, a posteriori, como felizes. De repente, toda a cidade havia decidido comprar o item de coleção, embora ele tenha sido vendido há tempos. Trim, trim. Se o telefone tocava, ela já sabia – lá estaria um comprador atrasado.

Também subitamente pareceu-lhe muito maldoso os itens deixados por ele, para ela. Um prato, uma frigideira queimada  - para lhe lembrar do Sérgio Reis entoando a clássica ode às coroas – e até uma tampa de panela velha. “Presentes” bem intencionados que acabaram por lhe dar tristeza, não intencionalmente, ela sabia.

Ela não estava apaixonada, insistia em pensar e dizer (e estava convicta disso), mas sentia falta daquele “relacionamento com prazo de validade”. Ela gostava de se lembrar dele penteando os cabelos todos pra trás, como um velho pescador norte-americano, e ria ao pensar como detestava a coloração das lentes de seus óculos.

Por algumas vezes, sentiu melancolia ao olhar para um cantinho onde eles gostavam de ficar. Sentia falta de dormir com ele e de outras coisas mais advindas de tal proximidade. Em outras ocasiões, refletiu se deveria escrever sobre ele – porque essa coisa de transformar pessoas reais em pseudoficção só tinha lhe dado má sorte até agora. “Os homens ficam se sentindo os maiorais”, lembrou, mas sabia que essa melancolia e saudades pareciam só servir para que seu lado direito do cérebro transformasse tudo em palavras organizadas pelo seu lado esquerdo e virasse um conto bobo de quem sente falta de outrem.

Ele, que era notadamente mais pragmático, não seria convocado a conferir o texto no qual ela admitia como sua ausência era sentida. Ela preferia que eles ficassem leve, como eram, e tal leitura poderia causar nele uma má interpretação e afastá-lo ainda mais. Ela sabia que pouco a pouco seus contornos femininos iam sendo esquecidos pelo cotidiano, pelos caminhos que a vida ia seguir, e isso já estava acontecendo nele, ela sabia. Por sua vez, ele estava imortalizado naquele escrito no qual ela admitia dele gostar, assim como havia gostado tanto dessa banda nova e desse filme de hoje.

segunda-feira, outubro 29, 2012

Milton, a morte e eu




Foi musical o primeiro pesadelo do qual tenho lembrança (antes que eu começasse a povoar meu R.E.M. com tsunamis). Eu devia ter menos de seis anos de idade e, uma noite, sonhei com um funeral que ocorria em uma estrada de terra, com poucas pessoas seguindo o cortejo. Eu via aquilo de cima de um morro e chorava compulsivamente pela perda daquele que seria sepultado logo mais. Dentro do caixão, no meu pesadelo, estava Milton Nascimento. Como pano de fundo, rolava no playback do meu subconsciente “Bailes da Vida”. “Pé na estrada de terra na boleia de caminhão, era assim”.
  
Talvez o pesadelo tenha sido influenciado pela imagem do velório de Elis Regina, a primeira artista que “vi” morrer. À época, eu tinha cinco anos de idade. Eu nem tinha me dado conta, mas a música já tinha esta dimensão de vida-morte para mim. 
  
Um paradoxo ter sua primeira lembrança de morte justamente com alguém de sobrenome Nascimento. Coincidentemente, foi o mesmo Milton o responsável por fazer com que eu derrubasse lágrimas de emoção durante um show ao vivo. Foi em um show do mineiro, para celebrar o aniversário de São José dos Campos, que eu chorei pela primeira vez por não caber dentro de mim a alegria de participar de um belo espetáculo musical. E quando na pós-adolescência perdi um amigo vítima de leucemia, chorei novamente ao som de “Encontros e despedidas” com aquela esperança de que um dia o reencontrasse em alguma estação. 
  
Não tinha me dado conta do quanto Milton Nascimento fez parte da minha história até zapear a tv neste fim de semana. Ao vê-lo lá, bem vivo após tantos anos do meu sonho de infância, senti como aquela alegria de reencontrar velhos amigos. “A plataforma desta estação é a vida”, pensei. E o velho Milton me fez sorrir novamente.

segunda-feira, setembro 24, 2012

Das coisas que eu gostaria de saber (ou fazer)


Regra de três (sem colar)
Cantar (sem desafinar)
Correr (sem falta de ar)
Tocar piano ou guitarra
Desenhar, grafitar
Sentar como princesa
Dançar tango e mambo
Nadar borboleta
Jogar vôlei
Trocar pneu
Virar estrela.

quinta-feira, setembro 13, 2012

Sobre amizad[]e

Então quando ele a tocou ela, tão incrédula, começou a acreditar em alma. E não havia como amá-lo mais do que ela já o amava, porque como é sabido, não há paixão ou contato físico que supere o amor da amizade. A afeição criada pelo encontro fraternal supera a alegria orgásmica e, assim, estabelece uma simbiose perfeita (do tipo capaz de nos fazer acreditar em coisas etéreas como almas). Não há máscaras a usar ou cair, não há medo, receio ou fraude. A alegria de estar juntos independe do quanto vestido estão: são e serão sempre boa companhia, um ao outro.

Há aquele momento brilhante em que estiveram juntos, mas ele apenas se soma a tudo aquilo que eram antes ou aquilo que continuarão sendo depois. O futuro não causa expectativa: podem ser fraternos amigos ou ardentes amantes, o adjetivo é que menos importa nessa sentença. O substantivo rege essa oração: a amizade e, consequentemente, o amor que dela deriva. 

E ela não precisava cavar um espaço no coração para guardá-lo: há muito ele estava lá, e essa cadeira, conquistada ao longo dos anos, a ele pertencia e era insubstituível. Como havia dito há muitos séculos um certo escritor espanhol, “La amistad multiplica las cosas buenas y divide los males.". A partilha é o que importa.

domingo, agosto 26, 2012

Porque estamos muito, muito perdidos


Estamos muito perdidos porque experimentamos a antagonia da sociabilidade e da misantropia.  Sentimo-nos obrigados a sermos felizes o tempo todo e, ao mesmo tempo,  confortáveis em dissipar aos quatro cantos nossa impaciência com a humanidade. Mau humor virou imagem  para ser compartilhada. Alegria, Prozac. Não aceitamos estágios de infelicidade como parte da vida. Afogados em medicamentos, reclamamos nas redes sociais. Recorremos à internet para reencontrar pessoas que não nos fazem a menor falta. Encontramos aquelas que de quem sentimos a ausência todos os dias. Ansiamos pelo amor, mas discorremos discursos embuídos de cores afeita à sociopatia. Bom, só "os iguais". Perdemos a sinceridade e, quando a encontramos, duvidamos dela. Preferimos prever o pior porque é difícil acreditar no que é bom. Ser honesto demais causa até certa culpabilidade. Trocamos amigos por amores efêmeros. Cosméticos corrigem as falhas do corpo enquanto varremos para debaixo do tapete nossas incoerências. E eu, que penso ser otimista e colorida, só consigo pensar nesse texto muito azedo e monocromático. Estamos mesmo muito perdidos.

quarta-feira, agosto 15, 2012

“You make my day”

E aí ela estava acostumada a viver assim, como se em todos os dias não soprasse nada além de uma brisa suave, incapaz de alterar os contornos de seu fluido vestido ou daquele fio de cabelo que insiste em cair sobre seu olho esquerdo.

A brisa permanecia a mesma e era assim desde que ela deixara alguém em um banco de praça, simplesmente porque não havia nada mais que furacões intransponíveis para eles. Depois daquela noite, todos os dias foram iguais, tomados por uma temperatura estável e por um céu de um azul desbotado e constante.

Embora ela respirasse melhor, era como se colorido contrastante dos dias tivesse desaparecido. Estava enxergando um colorido em 8 bits, nada além. Toda a ilusão romântica, que nela já era escassa há muito, havia se transformado em uma confortável sensação estática de viver. Nenhuma intempérie ou tempestade se abatera novamente sobre seu corpo.
A paz que ela sentia, no entanto, parecia pouco natural para alguém tão naturalmente colorido, como assim a costumavam descrever. Ela havia se esquecido como era enxergar uma com variação superior a 16 milhões de cores. Ou dos efeitos de um trovão ameaçando suas janelas. 

 
E foi assim, diante de uma calmaria sufocante, que ela percebeu a falta que lhe faziam as chuvas. Sim, ela se lembrava vagamente de sentir os pingos d’água atingindo seu rosto e  da sensação do frio cortante entrando por entre suas luvas em um já saudoso inverno. Naquele momento, ela desejou ver raios, ouvir trovões. Ela queria colher tempestade.

Naquele mesmo dia, pôde ver um acúmulo denso de nuvens se acumulando no horizonte. Cúmulus nimbos que subiam a mais de 20 mil pés avisavam que era chegada a hora de transformar a brisa em vento, o azul em luz. A tempestade escura estava muito, muito longe mas ela sabia que poderia alcançá-la. Naquele momento, teve medo, mas sabia simultâneamente que não era uma mulher presa aos dias de brisa. Sentia que a ordem só poderia vir após caos de uma tormenta.

Correu em direção à chuva e, embora tivesse tipo tempo de se vestir e calçar sapatos, sabia que não precisaria deles para encontrar o vento. Quando a água despejou sobre ela e os raios transformaram momentaneamente o escuro do céu em um halo tão brilhante quanto Sirius, ela não sabia qual seria o seu destino, mas estava disposta a tocar o infinito. A chuva havia arrumado os seus dias. E foi assim que ela sorriu de novo.

sábado, julho 28, 2012

Adeus, Playcenter!

O Playcenter, o mais tradicional parque de diversões de São Paulo e o primeiro do Brasil, fecha as portas amanhã e com elas, encerra naquela área de 85 mil metros quadrados a lembrança de muita gente que, como eu, viveu os melhores momentos de sua infância naquele lugar.

Não consigo imaginar meu passado sem as idas ao parque. Na primeira vez, eu era muito pequena para excursionar sozinha, então minha mãe foi junto. Lá vimos a baleia Orca, o cinema 180 e outras atrações como a montanha encantada - para a qual esperamos quase quatro horas para viver alguns momentos naquele barquinho. Nesta mesma vez, soubemos que um dos meninos da nossa excursão, o Carlinhos, havia sido expluso por arrancar a cabeça de um monstro (de mentira, claro) no chute. Foi a primeira vez que "presenciei" um ato de rebeldia. Eu tinha uns seis anos de idade, acredito.

Foto daqui: http://playcentermaniaco.blogspot.com.br/2010/12/do-fundo-do-bau.html


Depois disso, as idas foram ficando mais frequentes. E eu, mais velha, mas não menos sonhadora. Na saída do Cine 180, havia uma barraquinha para venda de artigos de mágica e doces pega-trouxa (a trollagem dos anos de 1980). Era como se fosse o nosso beco diagonal. Meu dinheiro nunca dava para comprar algo além do lanchinho que eu mesma levava, mas com umas modinhas consegui adquirir o primeiro Dadinho que pintava a língua de azul (e minha amiga Miriam, troladora que só, comprou vários!).

Ir ao Playcenter era o momento mais esperado da minha vidinha. A gente costumava ir uma, duas vezes por ano. Mesmo morando pertinho do empreendimento, a grana era curta para o Passaporte da Alegria - que dava direito a brincar em todos os atrativos - e só por isso eu não ia mais. Era tudo tão legal que a Casa dos Espelhos, a Casa dos Monstros e o Splash (a mini montanha-russa aquática) tinham quase a mesma relevência. Tudo era mágico. O cheiro da pipoca, do algodão-doce... Mascar o recém-lançado Babaloo de morango.... Viver tudo isso ao lado de colegas e amigos da escola, como a inseparável Sheila, o Kiko, o Lê... E ainda, aos 14 anos, dar o primeiro beijo (dele) em um garoto pela qual era era mega apaixonada na volta da excursão.


Em 2008 levei, pela primeira e única vez, meu filho Henrique para conhecer o parque. As cores já pareciam desbotadas, não havia mais tanta emoção, eu pensei. Mas para o Henrique foi diferente. A magia estava lá, nele, em seus olhinhos brilhando ao final do dia com tantas luzes. Percebi que o parque podia ter mudado e, de certa forma, decaído (haja visto que perdeu grande parte de sua área por dívidas com a prefeitura), mas a mágica de imprimir bons momentos na nossa memória continuava latente.

Vamos sentir saudades, Playcenter...

Para saber mais, clique aqui para acessar a matéria da Folha.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Sobre jabuticabeiras e quintais



Tem coisas que a gente só é capaz de aprender quando é criança. Comer jabuticabas é uma delas. Tente ensinar um adulto a comer jaboticabas e bingo: terás a comprovação da impossibilidade do aprendizado tardio de tal atividade. Sempre haverá uma cara enojada da cor branquinha que sai do fruto – ainda que haja alguma semelhança com as uvas, estas mais populares que a prima jabuticaba – ou outro preocupado com os efeitos colaterais. “Dá prisão de ventre”, disseram-me uma vez.

Sorte tive eu, que aprendi pequenininha a comer o fruto redondinho direto do pé, ainda no jardim de infância. Era um tempo em que as escolinhas tinham árvores, sem que isso impactasse nas mensalidades ou aparecesse como um bônus nas propagandas. As escolas tinham árvores porque isso era comum também nas casas de amplos quintais, coisa rara hoje nas grandes cidades.

Naquela época, a gente ficava ansioso pela época de colheita da fruta. Dia a dia, acompanhávamos o crescimento da bolinha verde, que ia mudando de cor com o tempo até ficar quase pretinha. Era uma atividade tão divertida como a de esperar a lagarta virar borboleta.

Observar a jabuticabinha crescer no pomar da escola tranquilizava minha ansiedade de nascença. Quando atingia o ponto, a gente corria até as árvores que me pareciam gigantes para colher os frutos ao alcance das mãos. A diversão continuava a cada frutinha colocada na boca.

Aprendi, naquele tempo, que o sabor da frutinha era uma mistura do suco de sua casca roxea com a polpa branquinha dentro. De tanto analisar, me especializei em saber quando um fruto não estava muito bom – ou já havia sido provado por um passarinho antes. Casquinhas um pouco abertas eram descartadas, mas sempre em um montinho de terra para ver se de lá surgiria outra jabuticabeirinha. Me fazia de passarinha, semeando jabuticabeiras que, para meu desalento, nunca brotavam.

À noite, deitava-me ao lado da minha mãe e irmã e brincava de olhos de jabuticaba, enconstando meu rosto ao dela. Ensinei meu filho a brincadeira, mas não consegui passar adiante meu amor pelas jabuticabinhas. Talvez só nos tenha faltado árvores e quintais.