Na noite dessa quarta-feira (22) uma mulher de 34 anos foi estuprada depois ter seu carro parado por uma pane na Marginal Tietê, próxima à
Avenida do Estado. Era 18h30. O criminoso fingiu ser mecânico e ofereceu ajuda
à vítima, uma das 16 milhões de pessoas que vivem na maior cidade do País, São
Paulo.
A moça, psicóloga, dirigia um Fiat Idea, o mesmo modelo
de carro com o qual eu passava pelo mesmo lugar duas vezes por semana. Por três
anos, percorri com esta regularidade os 24,5 km da Marginal Tietê. Na
maioria das viagens eu estava sozinha. Às vezes, eu passava por ali tarde da
noite, mas foi à luz do dia que eu fui ameaçada neste mesmo caminho.
Eu estava em direção da Cidade Universitária, dirigindo com vidros
fechados, de óculos escuros de armação azul e lentes grandes, blusa fechada, saia
comprida. Todos os veículos das faixas seguiam velocidade regular. Uns 50 km/h,
uma boa fluidez, se você considerar que se tratava de São Paulo num dia qualquer de
semana.
O tráfego reduziu um pouco e pude ver o motorista da frente
acenando pra mim. Achei que era problema no carro. Verifiquei o painel, portas. Nada. A fila foi
freando até manter uns 20 km/h. Pude ver melhor o moço do veículo na frente, um
carro esportivo, novo, preto. Um Golf ou um Tipo, talvez. Nunca entendi de
carro. Fiz um movimento com os braços, com as palmas das mãos para cima. Perguntei
séria: “O que?”. O cara colocou a mão esquerda pra fora do vidro. E começou a
fazer sinais com os dedos. Um V? Um três? Hum, um dois? Cinco?
Intrigada, olhei no retrovisor dele e vi que ele balançava a
mão com polegar e mindinho abertos, os outros três dedos fechados. Deduzi que
era um sinal de telefone. O cara parecia dizer: liga pra mim!
Consegui uma brecha, mudei de faixa, acelerei. Ele veio
atrás. Da segunda para a terceira faixa, da terceira para a quarta, ficamos
nessa dança. O carro me perseguia e foi aí que fiquei com medo. Ele conseguiu
emparelhar do meu lado e gritava pra mim. Eu respondi de cara feia: “sou
casada!”, mas mantive os vidros fechados. Eu já era divorciada, mas não pensei em nada
diferente. Ele fez um sinal com as mãos e meu conhecimento empírico de leitura
labial leu o que ele me disse: “Tenho pau grande. Você gosta?”. Não tenho
dúvidas de que esta foi a frase dele.
Acelerei, mudei de faixa de novo. Consegui pegar a pista que
eu precisava, a da direita, e subi o pontilhão de acesso à Marginal Pinheiros.
Ele sumiu e senti um alívio ao sentir o cheiro fétido do Rio Pinheiros e da
empresa de remédios logo após o fim da ponte. Tive medo se continuar sendo
perseguida, de ser pega, de ser arremessada na água dos rios. Tudo pareceu muito
rápido.
Tive sorte porque meu Fiat Idea não parou como a da
psicóloga. Cheguei na USP, falei com uma amiga sobre o
incidente, chocada. Meu primeiro questionamento foi: o que eu fiz para provocar
isso? Sim, fui seguida na Marginal por um tarado e me senti culpada por alguns
momentos. O senso comum apregoa que a culpa é da Eva, que comeu a maçã, certo? Teria
eu dado algum indício de sexo livre na Marginal Tietê? Não. Eu não dei,
respondi ao meu próprio preconceito.
Okay, você pode achar que isso não é violência, porque não
fui tocada pelo estuprador em potencial. Pode parecer que “virou moda” falar de
estupro. Eu mesma compartilhei dois textos nesta semana no Facebook sobre as
agruras de ser do gênero feminino. Mas o que você não saibe, talvez, é que o
que deve sair de moda é mesmo essa violência invisível e falar sobre essas
minhas experiências, ainda que negativas, fazem com que eu me sinta mais forte.
Que eu reforce para mim que, se pudesse voltar no tempo, teria denunciado todos
os agressores que encontrei ao longo da minha vida.
Aos seis anos de idade, um coleguinha meu da escola “primo
da prima do meu primo” e seu vizinho tentaram me estuprar na garagem da casa
dele, onde eu sempre ia para brincar. O meu amigo tinha sete anos. Seu
vizinho, uns 10, 11. Eles me levaram à garagem e disseram: “a gente quer comer
você”. Eu pensei que era algo relacionado ao canibalismo. Fiquei assustada e
eles me explicaram: “não, tire a sua calcinha, é assim, assado...”. Eu fugi e
fiquei embaixo da cama da irmãzinha do meu colega até meu pai me buscar.
Fiquei mais de 10 anos sem falar com este menino, que
estudou na minha sala por uns três anos ainda. Nós nos encontrávamos em festas
de família, vez ou outra. Já adultos, ele me perguntou: "por que você não gosta
de mim, Stela?". Ele não se recordava. Expliquei. Ele ficou envergonhado, jurou
não se lembrar. Eu o perdoei. Éramos crianças, certo? Voltamos a ser amigos.
Minha raiva passou, mas naquele dia, há tantos anos, um pouco da minha inocência já
fora perdida. Talvez eu tivesse que fugir outras vezes. Como, de fato, ocorreu.
A primeira vez que vi um homo erectus foi numa tentativa de
estupro. Eu tinha 14 anos, trabalhava numa pequena loja de camisetas. Este
cara, que passava de bicicleta todos os dias na frente do estabelecimento e me
falava baixarias, um dia entrou no lugar e pediu para experimentar uma roupa.
Eu peguei a camiseta e indiquei o banheiro (não havia vestiário). Ele entrou e
saiu sem calça, sem cueca. Com um pênis armado pro meu lado. Eu nunca tinha
visto um homem sem calças, muito menos naquele estado. Eu corri e peguei o
ferro de baixar a porta da loja. Peguei a barra, gritei qualquer coisa e saí, chorando.
Pedi ajuda à vizinha, larguei a loja sozinha. E chorei por horas.
O criminoso –
ironicamente cara e vestes de Tiririca, pelo que me lembre -, nunca foi denunciado por mim.
Minha mãe reduziu a importância do incidente. Mandou-me trabalhar de volta. O
cara não voltou e soube depois, pela minha prima, que ele era carcereiro na
Cadeia Pública. Como ela descobriu? Comentando com um e outro sobre o tarado. Antes
de mim, era pra ela, que me antecedeu no mesmo trabalho, a quem ele dirigia suas
baixarias. Ela também tinha 14 anos de idade.
Em uma dessas incursões de violência, por volta dos 19 anos,
eu não consegui fugir. Fui pega não por um desconhecido, mas por alguém com
quem eu me esbarrava vez ou outra. Novamente, eu chorei. E “esqueci”.
Nunca havia elencado estas experiências e trazê-las à tona,
no papel, é um alívio e uma tristeza. Porque há outras coisas, como ouvir de
um chefe que “não contratará mais mulher, porque mulher fica muito doente”. Ou
aquela vez que eu menino de rua apertou meus seios no meio da rua, quando eles
ainda estavam mal formados. Ou quando um você tem que insistir para um homem usar
preservativo, embora alguns deles argumentem que “é como chupar bala com papel”
– como se para nós mulheres tanto fizesse a sensação "bala encapada" ou "sem embrulho", e como
se fosse um fado nosso esta reivindicação. Ou naquele dia que você quis terminar um
relacionamento, por falta de amor ou outro motivo, e levou puxões de cabelo, mordida na mão, entre outras
agressões físicas e verbais como "vagabunda, desgraçada".
É triste que este desejo de me expor tenha ocorrido
justamente agora, quando esta moça foi estuprada na Marginal Tietê. Mas se ela
não se calou, por que devemos nos calar, mesmo a posteriori? E se o silêncio é
a conivência, gritemos para que essas histórias sejam denunciadas, punidas,
compartilhadas. Eu prometo nunca mais me calar. O estupro nosso de cada dia não merece mais fazer parte de nosso cotidiano.
Stela Guimarães








